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segunda-feira, 10 de março de 2008

Post Mortem

I couldn’t think straight at all. Her words echoed in my mind and in no way they seemed to help. They were in fact the opposite; the reason of my torment and why my strength slowly left my muscles. The soft seductive voice that controlled my thoughts left me confused. I wasn’t pissed. I wasn’t angry. I was at her mercy when I shouldn’t be. With just a few words she made me stare in awe and conclude there was no other way of the describing all those years we spent together. It wasn’t a yes or a no. It was just a dubious response that could mean a sincere “of course” or an ironic “hell no”. Call me naive, but it left me harmless and made me feel helpless.

The agonizing part develops like a child in its womb. The essence of the pain is the doubt. An uncertainty that drives your mind through a never ending torture.

The knife’s blade felt cold.

It stabbed straight into my heart. Half-in and half-out always twitching and turning making the pain constantly remain. You’d think your senses would fade after a while, but they don’t. The knife hurts just as much in the mind, body, and soul.

The constant debate whether you’re right or wrong; whether you know the answer or not; whether there might be hope…or not. Almost as if you unwillingly wanted to grasp insanity.

My damsel…

She could’ve meant yes.

But then her words would contradict themselves.

I bet she lied. She lied and did it sarcastically.

That bitch…

You’ll easily switch between two absurd points of view with relative ease. Then you’ll resort to logic and none of it will make sense, because later you’ll conclude logic is useless when it comes to feelings.

The hole just gets deeper and deeper. The rabbit has fooled you into his trap and not even Alice seems to be part of this wonderland. Light and hope seem distant and soon turn into a speckle of illusion. A mirage of the dumb…and that means you.

After hours of mental collision and internal conflict your soul is where your heart should be, your logic where your soul should be, and your heart torn apart.

Few understood the process I went through and even less understood why I did it. They knew I wasn’t strong enough to overcome the obstacles and even more to conquer the evil disguised in grey. They found my bones alone. No muscles, no tissue. All of it was drained from me until it hit the marrow.

From that point on I couldn’t see a thing. Darkness mixed with a faint image of old wood. Outside the capsule I could hear many lamenting. Commenting what society had lost. Those interested me not, but the ones who mentioned they had lost a friend caught my attention. A few sounded true and even less voices I could recognize. Those close and loyal enough said nothing at all, they showed themselves true to the friendship by providing the tombstone engraving.

“R.I.P. dear friend, for only in death there are no thoughts: Only certainty.”

If she was there, next to the coffin, I heard not a word. All the better because her silence would not be deciphered.

As if cared.

I chose not to be.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Pela Primeira Vez

A escuridão no céu revelava que o sol já tinha se posto há tempo. No chão, o luar iluminava todo o jardim e apenas poucas sombras eram formadas. Na penumbra, ao lado de uma imponente macieira, dois pálidos corpos conversavam deitados na grama.

- Então hoje temos a noite livre? - perguntou a figura masculina.
- Não, mas é só ficar de olho na casa. Não é tão ruim. - responde a garota de jovem aparência
- Ah. O Paulo sabe se virar. Ele não precisa de duas babás.
- Eu tenho minhas dúvidas. - a garota beija o homem no canto da boca e começa a se levantar – Quando voltarmos a gente continua.

O sorriso de Samara era quase hipnotizador. Ela não precisou oferecer a mão para Julio. Ele já a acompanhava na mesma velocidade, escalando a árvore e subindo de galho em galho logo atrás.

Achando um galho maior e chato, no topo da árvore, Samara verificou se havia espaço para Julio. Não era dos galhos mais confortáveis de se sentar, mas ele parecia agüentar ambos e a visão da velha casa na distância era ideal.

- Será que vai demorar muito? - a pálida pele dos dois refletia a luz da lua.
- Sei lá Julio. Você lembra como foi a sua primeira vez?
- Quê? Me testando, é? Faz muito tempo, mas eu lembro sim. Foi com você. - ele sorri com o canto da boca.
- Pelo menos isso você lembra. - uma inevitável risada escapou da boca da garota de olhos castanhos.

O silêncio perdurou por algum tempo enquanto ambos procuravam identificar qualquer movimentação na casa por dentro de suas largas janelas antigas. O luar facilitava a tarefa ao iluminar a casa e o gigantesco quintal da mesma. Entre o pálido casal e a casa ficava o que devia ter sido um luxuoso jardim em tempos passados. Atualmente, um emaranhado de plantas e capim dominava o que deveria ser terreno suficiente para um campo de equitação.

- Sabe o que não entendo? – Julio pouco se importava se queria ou não conversar. A indagação dele soava ingênua e natural, como se aquela dúvida fosse solucionar a razão da sua existência. – Como que até hoje nunca investigaram o casarão? É um ótimo lugar. Funciona e funcionou muito bem pra gente, mas é impossível um pai nunca ter suspeitado que sua filha puritana tenha vindo para um lugar desses em busca de privacidade.

- E é por isso que eu digo que você é esquecido. Meu pai veio me procurar aí.

A expressão facial de Julio era impagável. Seus olhos entreabertos xingavam Samara de mil nomes sem nunca falarem uma palavra.

- Isso foi há –
- Eu sei, muitos anos. Ainda assim, felizmente naquela época a polícia não deu muita bola pra ele. Hoje em dia isso não acontece mais porque o terreno é particular.
- Você que pensa. Hoje em dia é fácil demais, mas a gente pode estar sendo investigado e nem sabe.
- Não. É fácil e tranqüilo porque a gente não comete erros. Porque a gente não chama atenção. Por que você acha que a gente geralmente vem aqui vigiar? Sempre que um casal entra na casa, alguém tem que ficar de guarda do lado de fora. Além do mais, nunca deixamos qualquer ras –

Um grito feminino distante cortou o ar e o diálogo.

- Até agora. – Julio não perdeu a oportunidade. Seu sorriso era sarcástico.
- Paulo... – Samara comentou olhando para casa com olhos prestes a pegar fogo.
- Deixa ele. Você se irrita com facilidade. É normal errar quando se é inexperiente.
- Mas pelo grito da garota parece que ele não tem idéia do que faz.
- Calma...acontece nas melhores famílias.
- Exato e se sujar o nome da nossa eu mato ele. De novo.

A idéia de instigar a tempestade em copo d’água criada por Samara não apetecia Julio, então ele optou por ficar calado. Ainda assim, ele sabia que ela tinha alguma razão.

O silêncio retorna, dessa vez constrangedor. Todos os dois observando atentamente os arredores.

Julio toma a iniciativa e diz:

- Vamos lá ver se está tudo bem.
- Por que a preocupação repentina?

Julio aponta rapidamente para a estrada que tangencia o terreno da abandonada casa. Em razão da distância, apenas se pode ver o fraco piscar alternado de luzes vermelhas e azuis por entre o matagal do quintal.

- Eu sabia que ele ia fazer merda. – Samara resmunga.

Usando a noite como refúgio o casal rapidamente deixou a árvore. Um largo pulo e metade da distância até a casa já tinha sido coberta. Por entre as sombras a outra metade foi alvo de uma ligeira corrida. A escuridão como o perfeito disfarce.

Chegando à entrada, ambos pouparam tempo pulando e entrando por uma janela no segundo andar.

- Paulo! – a voz de Julio se propagava com facilidade por entre a madeira velha e os corredores vazios.
- Aqui. No quarto. – a distante voz respondeu.

Julio e Samara chegaram à porta do quarto e analisaram a situação. Um grande e antigo cômodo em que tudo era velho e decadente. O chão de madeira rangia e a quebrada maçaneta da janela mostrava que ela não tinha sido aberta em anos, assim retendo o cheiro de poeira e mofo.

Exceto pela cama. Uma gigantesca e conservada cama pairava no meio do quarto. A madeira da sua estrutura brilhava e os lençóis cheiravam a amaciante. No centro do colchão, iluminada pelo luar que atravessava a janela, deitava uma jovem envolta em um fino lençol roxo. O que o lençol não cobria, revelava ser um escultural corpo nu, mas de coloração estranha que parecia perder vida e ficar pálido.

Paulo terminava de vestir sua calça quando Samara exigiu respostas:

- Ela tá viva? – a autoridade era audível.
- Depende de o que você considera “viva”. – Paulo respondeu sem perder a oportunidade e o senso humor.

Enquanto Samara se aproximava do corpo, Julio continuava com as perguntas:

- Por que ela gritou?
- Não sei. Estava tudo bem. Estávamos abraçados e nos beijando e de repente o olhar dela mudou. Parou de sorrir e gritou. Eu não sabia o que fazer e mordi.
- Idiota. Ela viu seus dentes. Seu olhar pervertido também não deve ter ajudado muito. – Julio desvendou o mistério com facilidade.
- Ela está com um pulso fraco. Deve acordar em algumas horas, mas a gente precisa sair daqui. – Samara informa.
- Por quê? – Paulo indaga.
- Porque a sua gritaria chamou a atenção da polícia. Pegue os lençóis que eu vou carregar a garota. Samara lidera.

Paulo rapidamente puxa os lençóis da cama, desenrola o que ainda está preso ao corpo da garota e coloca tudo debaixo do braço. Samara abre a janela com um forte e preciso chute. Julio ajeita o corpo feminino sobre o seu ombro e observa a profunda marca de dois dentes caninos marcados no pescoço. Dois buracos quase idênticos, simétricos e eqüidistantes sem qualquer indicativo de sangue vazado ou uma área dolorida em volta.

- Apesar de tudo, Paulo, foi uma bela mordida. Nada mal para uma primeira vez. – Julio sorri com o canto da boca.
E em instantes a casa estava vazia novamente. Policiais perplexos deduziram ter sido um trote ou jovens marginais. Sem as figuras pálidas, a casa voltou a ficar vazia como parecia estar pelas últimas centenas de anos. Camuflada para a civilização.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Betrayal Gone Red

Peace

We desired to be together. I did with my entirety, but she did only half. A part of her wanted to be with me and a part didn’t. Her words descended as cruel speech from a father upon his child. My inside ached, but I understood. I respected Decay and it would feel as a betrayal on my behalf.

As I treaded back to sulk into the darkness, my thoughts wouldn’t leave me alone. Nevertheless, I was rescued. The five steps that felt like kilometers were interrupted by the calling of my name. I turned and faced back. I couldn’t deny her voice.

It was unexpected, yet perfect.

Our lips touched.

Thoughts left my head and only a calm peaceful tide could be felt. Rejuvenating.

At the end, we knew words would not help at anything. We had already been careless for exposing ourselves in public, but it seemed worth it.

I smiled. She smiled back.

Then her eyes felt empty and her body fell.
Loss
Half of Decay’s sword had already pierced her from behind.

I drew my sword and as a reaction his lackeys arrived.

I used the opportunity to swing my blade. In a swift movement he retrieved his from her body and the blood escaped from the wound dragging her life with it.

The scene held my eyes in place almost long enough to join her. The high pitched swing of the blade woke me up and I evaded just in time. He held no grudge at attacking and drew a second sword from his belt. My avenging chances were slimming.

His men approached as well, but they were no match. As always, stupid enough to follow and stupid enough to fight. They lacked the intellect and the ability to truly assess the situation and confirmed the definition of disposable henchmen.

With one thrust I cut open three chests. Their leather armor was red and prevented much of the blood from being seen. An old technique to diminish the opponent’s moral. Luckily the falling of bodies and screams of agony easily substituted the strategy.

Decay seemed to laugh. I could not be sure. It was dark and he wanted me dead. I had no idea a kiss could change that much.

I wanted to swing, but my arm faltered. It hurt. It bled. Decay had somehow hit me.

My thoughts were in my way. They kept me out of focus. Where was her body?

Another musical attack headed my way. The sound metal cutting the air felt unpleasantly close.

I rapidly crouched and then tackled him with my shoulder. It worked.

Decay lost his balance. Holding two swords did not help regain the standing position. He tripped backwards, unfortunately on her body, and fell helpless.

One blade on the floor and the other held with both arms. He cowered. He acted as a child, upon the sight of a hungry bear, would.

But the bear had no words. The bear’s heart ached. The bear’s soul felt void. The bear wanted blood.

With one hit his sword flew far away. He held his clenched fists up and thought they would protect him. I took no chances. I cut them off.

I dropped tears from my eyes and the sword from my hand. I dropped my closed fist on his face. A successive session of blows and punches at first hit the flesh. Screams accompanied most of them and fueled my rage.

Some time later they stopped and I started to feel the hard and impenetrable tarmac. It seemed over.

I got up and searched for her. Tainted red and with a pale base she laid there on the floor. Back punctured and without a soul. I held her next to me. I hugged her hopping comfort would come out of it.

Decay knew everything, which meant he was a spy. A public enemy dressed in red armor portraying the eagle emblem. A traitor to the nation. And I, a traitor to a friendship.

It was all betrayal. Did the reason or consequences matter?

I would ensure they would both get a proper burial.

Would I deserve one too?

terça-feira, 24 de julho de 2007

Negra Cicatriz

Com esse post é dado início a uma novidade no Vagrant Bard. Um conto policial, de minha autoria, em seis capítulos. Porque esperar é um saco e uma tortura desnecessária, aqui vai o conto na íntegra. Leiam e divirtam-se...

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I

Uma placa azul enferrujada, daquelas pregadas em prédios, dizia o nome da rua: Avenida Imperial. O nome confirmava que eu estava no lugar certo, mas não havia avenida alguma ou qualquer coisa de imperial. A chuva descia do céu negro e abafava os ruídos de relâmpagos ao fundo. A perfeita noite para estar em casa, e ali estava eu em uma ruela mal iluminada com um esgoto congestionado descendo com dificuldade pelo canal ao lado do meio fio. O toque de atraso era evidente. Era uma rua com prédios do início do século, divididos por uma faixa estreita de paralelepípedos. Eram amarelos ou azuis, mas independente de cor estavam todos descascando e revelando o vermelho dos tijolos em diferentes pontos. Traziam-me lembranças de Sofia.

Uns dois ou três postes iluminavam de maneira precária o que ainda sobrava da rua. Entre o intervalo dos primeiros dois postes havia uma área vermelha, iluminada pelo piscar repetido de um letreiro antigo que dizia “Fun House”. O que antes devia ser uma excelente estratégia de publicidade, agora só atraia o olhar hipnotizado de um mendigo que se abrigava debaixo de uma marquise na calçada oposta. Porque a curiosidade... Não sei. Talvez ele não entendesse inglês. Talvez por isso o olhar curioso e estúpido. Não importava.

Aproximei-me do infeliz e perguntei-lhe se tinha visto alguém entrar no estabelecimento. A minha resposta foi a hipnose do letreiro decadente. Enfiei a mão no bolso e tirei um maço de cigarros. Puxei um deles pela ponta e entreguei ao mendigo. Ainda com o olhar fixo no letreiro, ele pegou o cigarro e o colocou na boca esperando o toque final. Com a outra mão, já esperando essa reação, eu tirava um isqueiro. Era um daqueles chatos de prata, típico de filmes de aventureiros. Tinha o visto pela primeira vez em um antiquário e já ia deixá-lo de lado se não fosse pela cabeça de gárgula estampada em um dos lados. Ela sim, me fez tirar a carteira do bolso. Acendi o cigarro. O homem, estupidamente, inalou e sugou com toda a força, como se aquilo fosse perfume. Até eu que não fumava sabia as conseqüências. Enquanto ele tossia, o fedor da fumaça se espalhava, assim como as respostas. Eu vi sim – ele parou para tossir – muita gente rica e arrumada. Daquelas de terno e vestidos que arrastavam no chão. Nada disso soava bem. Joguei outra migalha de nicotina ao porco e atravessei a ruela.

De baixo da marquise da casa de diversões um gigante engravatado me esperava. Não havia fila, o que era de se esperar. Já era tarde e o lugar parecia ser dos piores possíveis: um cabaré barato, sujo de pouco movimento e do pior público. Das duas uma: caminhavam em direção à falência ou lavavam dinheiro. Paletó. O provável ex-lutador de luta-livre se fez entender. Como não queria causar confusão ou sair com a cara amassada tirei o paletó molhado e o entreguei. O paletó foi revistado de maneira cuidadosa, sendo avaliado cada bolso. No último bolso foi encontrado um resto de rosa. Sem caule e amassada, mas ainda assim: uma rosa... Ou o que restava do presente de Laura. Cuidadosamente o segurança a colocou de volta no bolso e me devolveu o paletó. Pode entrar. Vire a direita. O Chefe lhe espera.


II

Entrei na casa dos prazeres e para o meu espanto, lá dentro as coisas eram bem diferentes. Fui engolido por um grande salão escuro que se apresentava com um placo no meio. Uma mulher dançava em cima enquanto fazia seu ato erótico da noite, em meio à luz negra, para os homens de meia idade com olhos arregalados.

Fiquei desnorteado. A música era a alta e o ambiente hipnotizador. Caminhei em direção ao palco para tentar descobrir onde que o tal chefe poderia estar me esperando. “Senhor... a cozinha é para o outro lado.” Foi o que uma voz disse acompanhada de uma mão que tocava o meu ombro.

Cozinha? Porque diabos eu ia querer ir para a cozinha. Suspeitei, mas ainda assim dei meia volta e identifiquei no lado oposto do salão um outro ambiente separado por uma parede de vidro. Paredes e teto acolchoados pelo mesmo couro vinho que amaciava os bancos. Uma iluminação uniforme agradável que não atrapalhava nem a garçonete que servia as bebidas ou os grupos reunidos nas mesas que podiam ver claramente suas refeições.

Empurrei a porta de vidro e notei que o som também era agradável. Ao contrário do salão negro, uma melodia mais calma tocava a fim de acalmar todos lá dentro. À minha esquerda um mosaico de garrafas era exibido atrás do balcão do bar. Não queria aparentar perdido como anteriormente, mas vasculhei as estantes alcoólicas e me deparei com a garçonete que buscava o contato visual. Ela apontou discretamente para uma porta dupla na outra ponta do salão. Janelas redondas denotavam um ar de cozinha. Minha suspeição apenas aumentava, mas correr não era uma opção. Segui calmamente e empurrei as portas, entrando no que seriam os bastidores do restaurante.

Encontrei-me dentro de um típico estabelecimento de luxo. Fogões industriais de última geração e uma bancada prata que apenas esperava pessoas para cortar e preparar os mais variados alimentos. Rapidamente um homem se aproximou de mim. Ele vestia branco e um chapéu peculiar, a típica farda de um cozinheiro.

- Prazer senhor. Eu sou o chef.

Não tive ânimo para rir.

- Me acompanhe, por favor. – disse ele diante da minha ausência de resposta.

Andamos o suficiente para eu mudar de idéia quanto ao tamanho típico da cozinha até que chegamos às escadas. Descemos dois andares até que o cozinheiro pediu que eu parasse.

Diante de nós estava mais uma porta dupla de cor prata. À esquerda dela, em cima de uma pequena bancada, uma caixa de papelão fechada.

- Vejamos... o que temos aqui... – o chefe falava enquanto abria a caixa. – Ah! Essa vai cair bem em você. – Ele retirou da caixa uma face vermelha e tribal. Parecia um demônio inca.

Peguei a máscara e experimentei no rosto. Gostei.

- Vejo que temos gostos parecidos. – o cozinheiro me bajulou como um fiel mordomo faria. – Agora, apenas gostaria de lembrá-lo que não é permitido tirar a máscara durante a festa. A menos que você esteja no banheiro individual e seja necessário. Havendo qualquer problema, procure um dos seguranças, eles estarão vestindo máscaras variadas, mas haverá sempre um girassol nos seus bolsos da frente.

Agradeci com um gesto singelo e empurrei as portas. Junto com a música e sua batida pesada veio um cheiro de carne crua. Senti-me como um predador que havia acabado de encontrar sua presa. Os fatos coincidiam e aquele era o frigorífico.

Um tapete vermelho ditava o caminho para a festa em meio ao azulejo mal iluminado. No entanto eu sabia que eventualmente teria de abandonar o vermelho do carpete para seguir o vermelho do sangue. Laura estava por aqui e seria apenas uma questão de tempo até achá-la.


III

Há coisas na vida para as quais nunca somos preparados. O frigorífico era uma delas. Em todos os meus anos de jornalista, anos de loucas festas da mais alta sociedade e “choppadas” de faculdades, eu só havia visto isso em filmes. Talvez eu não tivesse visitado os lugares “certos”. Talvez eu não tivesse um olhar tão atento assim.

Cada passo naquele carpete macio acompanhava a batida pesada eletrônica. Todo o corredor tremia ao som da música. A melodia sintetizada e os instrumentos nada naturais me agradavam e eram um alívio naquele ambiente. Techno Industrial é o que muitos falariam, mas aquela música fazia parte de um ambiente que incluía muito mais. Um ar pesado me englobava e o rastro de fumaça me indicava a origem. Um grande salão se apresentava para mim com um balcão improvisado à esquerda. A tábua, onde muitos animais provavelmente eram mortos diariamente,servia como apoio para uma exibição de drinques. Nenhum deles tinha o típico guarda-chuva decorativo, mas as cores das bebidas já eram tão fosforescentes que dispensavam qualquer adorno.

Os garçons, de terno vermelho e cabeça de demônio laranja, saiam em suas rotas pré-estabelecidas distribuindo o que pareciam ser os derivados de absinto junto com um peculiar charuto. Senti o isqueiro dentro do meu bolso, minha mão tremeu. Não era a primeira vez que eu tinha sentido a vontade de fumar. O próprio isqueiro era prova disso. Comprei-o pela face de gárgula, mas passei a carregá-lo comigo por causa da maconha. No entanto, uma viagem mal sucedida foi o suficiente para me convencer de que o isqueiro serviria apenas como uma espécie de chaveiro. Um inútil adorno do qual gostamos. As lembranças dos tempos de faculdade, embora distantes, eram o suficiente para confirmar que o cheiro do salão não era da típica erva. Quanto aos convidados, eles dançavam e riam como crianças. Crianças torpes. Não devia ser cannabis sativa, era diferente, era bom demais.

Virei à direita em uma porta estreita. Mal havia luz do outro lado, levando a entender que devia ser uma área restrita. Uma estreita escada de metal me aguardava a frente. Ao topo do primeiro intervalo de degraus encontrei um casal nu, exceto pelas máscaras, usando o chão como se fosse uma luxuosíssima cama de motel. A luxúria de uma forma geral é incontrolável, mas o azulejo gélido geralmente seria evitado por casais, mesmo com instintos sexuais aflorados. Se não fosse pelo uso óbvio de uma droga, era possível dizer que o casal estava tentando inovar uma posição sexual. Contudo, os olhos tremidos e ligeiramente tortos davam a entender que eles não tinham exata consciência do que estavam fazendo. Uma noite dessas provavelmente seria o sonho de qualquer adolescente tarado. Talvez até hoje fosse o meu.

Passei por cima do sexo dos demônios e atentei para a questão principal. Laura devia estar presa em algum lugar no segundo andar, já que este parecia ser de acesso restrito. Nunca achei que fosse me encontrar nessa situação. Procurando uma amiga minha em uma festa underground. Não é todo dia que se recebe uma ligação desesperada aos prantos de uma pessoa que mal consegue balbuciar a palavra “ajuda”. Consegui o endereço da tal Fun House e assim que vim parar aqui. Guiado pela música e uma mistura de sentimentos. Sempre tivemos uma relação de amizade saudável. Hora colorida, hora não. Assim como uma luva encaixa nas mãos, encaixou a rosa que Laura me deu de bobeira (sic) pelo dia dos namorados. Esqueci o presente no bolso como o bom cavalheiro que sou e consegui acesso à festa. Já para com Laura era o oposto. Depois da ligação eu tive certeza de que a cena estaria tatuada na minha mente. Só havia uma forma de tratar isso, salvando-a.

Entrei em uma sala mal iluminada com um labirinto formado por enormes pedaços de carne pendurados por ganchos no teto. Por sempre evitar academias nunca tive um físico hercúleo. Pelo mesmo motivo não pude me defender quando senti o minotauro me golpear na nuca.


IV

Quando consegui levantar minhas pálpebras ainda estava sem qualquer noção de localização. Tive a impressão de estar pendurado pelos meus braços e foi ao retomar os meus sentidos que percebi que estava preso. Minhas mãos começaram a doer à medida que fui sentido o metal gelado em volta delas. Deviam ser algemas que me faziam abraçar o poste atrás de mim. Ainda com a cabeça pendurada, olhando para baixo, fitei minhas pernas. Elas me sustentavam em sentido vertical, mas também estavam presas por algemas. Fiz força e lentamente consegui erguer a cabeça. Meu pescoço parecia estar levantando uma bigorna. Gemi levemente com a dor.

- Vejo que o nosso convidado de honra acordou.

Uma voz calma e ligeiramente aguda se manifestou. Meus olhos lentamente traçaram o caminho até a sua origem. Um senhor idoso, meio baixo, com uma bengala na mão sorria para mim. Ele lentamente se aproximou. Cada passo equivalente a um estalo da bengala com o chão. Ele parou a uns dois palmos da minha face e me encarou.

- Quer dizer que você é o namoradinho da ladra?

Quê? Ladra? Do que diabos ele estaria falando? Era da Laura?

- Você não sabe do que estou falando? - O velho ajeitou a sua juba grisalha com um leve movimento da mão que não segurava a bengala. – Olha, eu não gosto de jovens que mentem. Sou uma pessoa muito gentil e amável. Eu cuido bem dos meus netos. Eles gritam “vô” e pedem algo e sempre que possível eu dou. Não quero mimá-los, mas eles sabem que tudo tem um preço. Quando é hora de dormir, não há discussão. Ninguém quer relembrar o que aconteceu com o Lucas. Hoje em dia eles vão para a cama sem pestanejar. Por isso eu queria aplicar esse mesmo ensinamento a esse nosso encontro.

O pequeno senhor estalou os dedos e saiu da minha frente. No lugar dele surgiu um homem de grande porte vestindo um terno e segurando uma bola de futebol.

- Esse é o Sílvio. Ele jogava futebol profissionalmente antes de vir trabalhar para mim. – Sílvio posicionou a bola na sua frente. – Agora preste atenção filho. A minha oferta é bem simples: fale a verdade ou você pagará o preço. Assim como os meus netos pagam, a única diferença é a escala de dor. Preparado? Quanto vocês tiraram de mim?

Naquele momento eu entendi que Laura devia ter mexido com a pessoa errada. Ela nunca me falou nada e eu não tive tempo para pensar porque. A bola atingiu meu estômago antes. O ar rapidamente fugiu. Senti-me como se tivessem colocado um saco plástico na minha cabeça e dado um soco na minha barriga.

- Patético. Você parece meu neto Gilberto quando tem crise de asma. Se coloque de pé ou vai tomar outra bolada nessa posição mesmo.

- Não sei. Eu não sei de nada. – Foram as palavras que consegui balbuciar.

- Tudo bem. Vamos fazer o seguinte... – Consegui vê-lo puxando um celular do bolso do paletó – Amorzinho. Vou tentar ligar para esse tal de “amorzinho”.

Ele apertou um botão e o silêncio permeou a sala. Até mesmo a minha respiração ofegante travou. Até que o meu paletó começou a vibrar e o suor a escorrer pela minha testa. Por que a Laura salvaria meu número como “Amorzinho”? Eu nunca tinha visto isso no celular dela.

- É. Acho que você deu sorte filho. Cometemos um engano. – concluiu o velho. Ele não tinha ouvido o celular vibrando, mas na terceira vez o toque foi ativado. A pequena melodia eletrônica me lembrou uma marcha fúnebre. Tremi, quase entrando em colapso mental. Sílvio se aproximou e pegou o celular do bolso do meu paletó, agora tocando cada vez mais alto.

- Péssima escolha filho. Você mentiu para mim. Você me desrespeitou. Agora vai pagar o preço. – vociferou o chefe grisalho enquanto ele me encarava e estalava os dedos.


V

Um alto barulho crescente de metal podia ser ouvido. Sílvio abriu a porta e com a luminosidade pude identificar minha localização. Era mais um dos salões de carne do frigorífico, mas vazio. Eu estava preso a um tubo de metal que fazia parte do encanamento exposto. Um carrinho de mão, daqueles para caixotes, foi trazido e nele estava estendida Laura. O seu corpo nu amarrado ao longo da extensão vertical que acompanhava a coluna. Apenas o rosto espancado e os pés ralados podiam ser vistos enquanto todo o resto estava coberto por uma quantidade excessiva de cordas.

Ergui-me e fiquei de pé sem pensar. A dor não importou. Nossos olhares se encontraram. Enquanto os meus olhos indagavam o porquê de tudo aquilo, os dela se despediam com um singelo pedido de desculpas. As lágrimas dela interromperam o recado e estas foram interrompidas pela voz diabólica.

- Escolha uma mão. Direita ou esquerda? – disse o velho para mim enquanto ele pegava uma grande faca de açougue. – Vamos... dê a mão. Você roubou, agora vamos cortá-la. – Sílvio estava tirando minhas algemas quando foi interrompido pela voz de Laura.

- Parem! – com todos os olhares voltados para ela, continuou. – Fui eu. Eu que roubei. – lágrimas se misturavam com suas falas – Ele não sabia de nada.

Sílvio recolocou as minhas algemas e o velho se aproximou de Laura, usando a sua bengala de metal para afiar a faca.

- Temos uma heroína aqui agora. Cá estava eu achando que a minha secretária, digo ex-secretária, tinha sido manipulada pelo seu namorado. Mas não. Laura... Laura... que decepção... Eu lhe dei acesso às minhas contas e você se aproveitou da minha bondade. Você devia ter pedido demissão quando lhe dei a chance. Uma garota jovem, bonita e muito gostosa. Eu fiz o impossível e te dei uma chance. Mas agora você sabe... Ninguém sai do escritório vivo. Ninguém.

- Aquilo era dinheiro sujo! Você consegue fortunas tirando de outras pessoas. – A resposta de Laura foi uma pesada palma de uma mão na sua face.

Em seguida, ela foi desamarrada e jogada no chão. Seu corpo estava completamente marcado por cortes e manchas roxas. Sílvio e mais outro gigante de terno seguraram-na enquanto o diabo grisalho esticava o braço esquerdo. Ele sorriu para mim e levantou o facão. Laura relutava da forma que podia e respirava desesperadamente. Os gritos dela ecoaram na sala. Quando eu vi sua mão sem dedos, os meus gritos ecoaram também.

Acho que ninguém gostou da cena, nem mesmo o velho, mas ele fazia pose de quem se divertia. As falas dele começaram a ficar incompreensíveis e a minha visão escura. O branco corpo de Laura, antes escultural, agora estava em uma posição contorcida. O branco profanado, agora manchado de sangue. Meus olhos involuntariamente passaram a recusar aquelas imagens e minha visão começou a escurecer.

- Fala vadia! Cadê o meu dinheiro? Onde você colocou? Fala a conta! – gritava o chefe enquanto meu corpo deslizava. Em meio ao colapso escutei falas avulsas.

- Senhor! Ele tá apagando. – uma voz grossa se manifestou, devia ser Sílvio.

- Eu quero que ele veja isso! Bota ele pra acordar! – retrucou o velho em meio aos gritos de Laura.

Senti em algum momento uma picada no meu braço esquerdo.

Uma luz verde fez com que meus olhos abrissem. O velho e os dois gigantes estavam de pé no centro do salão. Um corvo negro voava perto do teto e deu voltas em espiral até pousar ao lado do chefe grisalho. Os quatro formavam um circulo em volta do que restava de Laura. Sua face se despedia de mim com uma lágrima congelada na bochecha. O facão de açougue deitava ao lado dos pedaços do corpo e a poça de sangue se expandia cada vez mais contaminando o que restava de alvo.


VI

* * *

- Acabou? Isso é tudo que você lembra? – me perguntou o investigador.

- É. Como te disse, perdi a consciência durante o. ato. – Ainda não era fácil para eu falar sobre aquele assunto – Por que as perguntas? Já não prenderam o assassino?

- Prenderam? Trucidaram ele. A gente sabe que o Senhor Imilel foi o responsável pela morte de Laura, mas até hoje não descobrimos quem foi responsável pela morte dele e os seus dois seguranças.

- O que importa é que ele morreu. – disse sem hesitar.

- Eu te entendo, mas precisamos descobrir isso. Pode existir algum assassino de aluguel a solta que se aproveitou da situação. Não se recorda de mais nada?

- Olha. O psiquiatra me disse que eu tenho um bloqueio de mente. Na minha opinião eu apaguei. Apaguei de nervosismo. Não desejo o que eu vi para ninguém, mas fico feliz pela morte deles. Me disseram que eu fui encontrado no chão espancado e com as algemas quebradas.

- Ao lado de três corpos trucidados. – rapidamente retrucou o investigador, como uma criança fazendo um comentário esperto em sala de aula. Ele me irritou.

- E o que você quer dizer com isso? Que fui eu? Eu matei os três?

- Não! Eu só estou tentando entender o que houve naquela noite. Eles te espancaram depois de matá-la e cortaram as algemas quando viram que estavam atrapalhando. Só pode ser isso...

- Não me importa. Eu nem sei se estar vivo é uma coisa boa e você acha que eu vou me preocupar com como eles morreram? – Eu não agüentava mais. Tive vontade de matar aquele policial com suas perguntas inconseqüentes. Um corvo desceu do teto e pousou no seu ombro. Isso me levou a outra pergunta. – Tinha algum corvo lá?

- Quê? Não, não tinha... - o investigador engoliu seco - Você tá perguntando por causa da sua visão? Aquilo foi uma alucinação da adrenalina que injetaram em você. - Agora ele se dava o luxo de recusar a informação que eu tinha lhe dado. Me cansei.

- Essa conversa não tem para onde ir. Eu vim aqui buscar os pertences da Laura. – Tinham me ligado da delegacia justamente me perguntando se eu queria buscar os objetos dela que não tinham destino. A família não era encontrada em lugar nenhum e eu era o único vínculo evidente. Obviamente ninguém do trabalho se manifestou, estava tudo um caos.

O inspetor me entregou uma caixa de papelão com várias coisas. Algumas roupas, objetos aleatórios de escritório, um ursinho de pelúcia. Um porta-retrato com uma foto dela. A saudade me impulsionou. Abri o porta-retrato e peguei a foto. Dobrei-a, guardei no bolso do casaco e sai.

Chegando em casa tirei a foto do bolso. A face de Laura permanecia alva como sempre, mas o verso da foto não. Achei uma longa seqüência de números e um nome científico marcados pela letra dela. Não foi difícil ligar os fatos. Dias depois já tinha achado o dinheiro e descoberto o que tinham injetado em mim.

A manchete “Farmacêutica Imilel envolvida em produção de drogas ilícitas” foi a minha contribuição para o fim do legado daquele velho torpe. A matéria foi lida por todos e a empresa não agüentou a pressão. Em poucos meses faliu de maneira épica.

Já a substância que foi injetada em mim era para ser o protótipo da nova sensação. Dizia-se que era para ser melhor que o ecstasy. Não foi o meu caso.

Nada me fará esquecer aquela noite. Laura. Imilel. Ou o corvo. Se há coisas na vida das quais nunca conseguiremos nos lembrar, essa é uma das que não há como esquecer. A injeção aplicada de maneira errada no meu braço marca, desde então, uma negra cicatriz que começa na minha veia e termina no meu coração.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Craque Brasileiro

Como um péssimo patriota brasileiro eu nunca gostei de futebol. Nunca joguei bem e sinceramente acredito que esses dois fatores estejam relacionados em um clico vicioso. Eu nunca gostei porque sempre joguei mal e sempre joguei mal porque nunca gostei. Não faço idéia de qual fator veio primeiro e por isso não sei se sou escravo ou senhor do meu anti-patriotismo. Apesar de toda a tormenta que o futebol possa ter causado em minha vida houve um dia em que surgiu uma luz no fim do túnel. Desde então, para minha felicidade, eu não precisei mais dar o meu suor por aquele jogo de bola e o mais estranho de tudo é que a solução estava no próprio esporte.

Eu explico: o ópio do povo nunca se manteve distante das aulas de educação física e por isso toda semana eu era obrigado a participar de algumas partidas. No início fui coagido pela minha consciência e o temor das autoridades, mas com o tempo aprendi que tudo que é forçado e se torna desgastante acaba sendo burlado. Foi o que fiz, tentei boicotar o regimento interno do futebol.

Minha primeira atitude, como um aluno diligente foi conversar com o professor, mesmo que eu não soubesse dar o recado em uma única fala:

- Professor, olha só...hoje eu não vou fazer aula não. Tenho consulta no médico.

Na semana seguinte:

- Professor, meu pé tá doendo. Não consigo jogar assim.

Mais uma semana:

- Professor, estou com dor de cabeça.

Até que uma semana o que eu temia aconteceu. Conversava eu no banco com outros reservas quando fui chamado e me tornei vítima do seguinte diálogo:

- O que tá acontecendo? Você não gosta de futebol?

- Não.

- É, percebi. Mas sabe o que acontece? Se você ficar arrumando uma desculpa toda aula pra não jogar a diretoria vai reclamar comigo. Você não pode ficar arrumando uma desculpa nova porque pega mal pro meu lado.

- Entendi. – e continuei de maneira enfática - Mas eu realmente não quero jogar.

- Tudo bem. Vamos fazer o seguinte...tá vendo aquele garoto ali?

- O Peru?

- É esse o apelido dele?

Fiz cara de quem não daria mais explicações e que lamentava pelo outro aluno.

- Vamos fazer uma aposta: se ele fizer um gol na partida você nunca mais precisa fazer educação física. Você vem e vou te deixar no seu canto lá sentado conversando com o pessoal do atestado médico pra não fazer aula. Agora se não tiver gol, você vai precisar fazer aula sempre e jogando todas as partidas.

Parei para analisar. Devo ter demorado um segundo para responder. A linha de raciocínio que ocupou minha mente durante esse um segundo foi bem simples. O Peru devia jogar muito mal para o professor fazer uma aposta daquelas. No entanto por pior que ele fosse eu ainda tinha alguma chance de ganhar. Não era como se eu fosse o jogador em campo, porque se fosse o caso, certamente não apostaria em mim mesmo. Se perdesse a aposta eu deveria praticar as aulas toda semana sem falta. Em teoria naturalmente, porque eu ainda poderia faltar mais vezes e certamente continuaria burlando o sistema. Por outro lado se eu ganhasse a aposta eu não precisaria mais me preocupar em driblar a freqüência da aula e poderia descansar e receber presença ao mesmo tempo. Em suma, não tinha nada a perder.

- Tudo bem, vamos apostar.

Não sei quantas copas do mundo eu já assisti e apoiei o Brasil, mas durante todo o meu tempo de pseudo-patriota eu nunca me senti tão emocionado como naquele jogo. O destino (literalmente) em jogo soava muito mais importante e mal sabia Peru que naquele momento era a minha esperança.

Mesmo sem jogar, o suor desceu pela minha testa quando eu via que nada acontecia entre Peru e o gol. Eles não pareciam se dar bem e até aquele momento nenhum chute a gol.

A depressão monótona foi quebrada quando nos últimos minutos, por uma falha do outro time, Peru dominou a bola e realizou o que tanto ele e eu desejávamos. Não fez sentido algum para qualquer um dos jogadores ver um louco no banco de reservas comemorando um gol tão patético de uma pelada de colégio. Não importava para mim, pois agora estava livre dos grilhões da arte nacional. Por mais que eu nunca tenha verbalizado o meu agradecimento ao Peru, sei que graças a ele o futebol foi usado como instrumento para me afastar ainda mais do próprio esporte. Graças ele, posso dizer que pelo menos durante alguns minutos, eu fui brasileiro.

sábado, 29 de julho de 2006

Tudo Bem?

Enquanto assistia a sessão da tarde na televisão uma senhora por volta de seus sessenta anos é surpreendida por uma mensagem de plantão.

“Caros telespectadores, interrompemos o filme ‘Um Morto muito Louco 4’ para informar que meteoros estão vindo em direção à terra e vão colidir em apenas alguns minutos resultando no fim do mundo. Alguns abrigos já estão sendo organizados por toda a cidade, mas sinceramente achamos que de nada irá adiantar. Recomendamos que todas as pessoas aproveitem seus últimos minutos com calma e sem entrar em pânico.Obrigado.”

Logo após o aviso Andréia se levanta e vai à janela. Em questão de segundos o que parecia uma bola de gude vermelha cresceu e explodiu a algumas quadras. Fogo e caos começaram a se espalhar pela cidade e enquanto vários tremores afetavam a terra a senhora correu. Agarrou um pequeno livro de telefones e procurou um número. Logo em seguida discou discou rapidamente.

O telefone toca uma vez. Outra vez. Três. Hesitantemente a mulher vai colocando o telefone no gancho quando ouve uma voz. Coloca o receptor no ouvido:

-Alô? Alô? ALÔ? – uma voz ofegante e estridente

-Dolores?

-Quem é? – sons de explosões e gritos podem ser ouvidos ao fundo

-Sou eu Andréia. Tudo bem?

-Andréia...?

-Andréia da faculdade.

-Déiazinha! Reconheci sua voz agora. Como você ta?

-Ah eu to ótima e você amiga?

-Melhor não poderia estar. Meu casamento ta ótimo, eu moro com o homem que eu amo e meus filhos são lindos. E você?

-Eu estou be – de repente do outro lado da linha criança grita: “Mãe! Vamos sair daqui! Ta tudo pegando fogo! Mãããããããe” “Cala boca muleque, não vê que eu to falando no telefone?” O som da linha fica mais abafado, mas ainda é possível ouvir. “Arnaldo para de beber cerveja e pega o garoto chorão aqui! EU TO NO TELEFONE!” os gritos soam em um tom completamente histérico e estressado.

-Dolores?

-Oi Dédé meu amor, desculpa pela demora, o cachorro tava latindo aqui e eu tive que soltar ele do canil.

-Ah tudo bem. Eu só estava dizendo que comigo está tu-

-Mas você me ligou por que mesmo? Eu sei que a nossa amizade permanece firme como sempre, mas eu queria saber se você ta precisando de algo.

-Na verdade estou. Eu tava ligando pra te pedir de volta aquele brilhante de diamante que eu te emprestei pra ir na festa da empresa do seu marido.

-Qual?

-Aquele do coração em forma de diamante, com os detalhes folheados a ouro.

De repente em explosão ecoa do lado da linha de Andréia.

-Dédé? Que isso?

-Ah foi nada, a empregada derrubou a geladeira – Andréia observa o estrago do meteoro que caiu na sua rua pela janela. Janelas estraçalhadas, pessoas gritando e muito fogo.

-Eu acho que posso te devolver esse brilhante. Mas pode ser semana que vem?

-Olha não fica triste, mas é que eu queria esse brilhante agora. Ele era da minha mãe e significa muito pra mim.

-Pede um pro seu marido, ele é rico e pode te dar um muito mais bonito.

-Você sabe que eu sou viúva Dolores. – um tom sério permeia a ligação.

-Ah foi uma brincadeira. Então você quer ele hoje, né? Eu vou falar pro meu marido passar ai depois do trabalho. – “Num vem com papo pra cima de minha não Dolores! Você sabe que eu to desempregado!” “CALA BOCA REX! ”

-Desculpa, é o cachorro que ta com fome aqui.

-Então hoje ele deixa aqui? –Andréia testa a mentira de Dolores.

-Isso mesmo...lá pelas dezoito horas ele deve passar ai.

-Tudo b-

-Mas foi ótimo ouvir de você Dédé. Estou feliz que esteja tudo ótimo com você. Vamos sair um dia desses amiga.

Um estranho barulho de ligação chiada começa a surgir e cada vez ficando mais forte.

-Dolores? Dolores? Você não sabe meu endereço.

Os bipes de ligação cortada ecoam pela linha.

Andréia calmamente pega uma caneta vermelha e risca o nome de Dolores de uma lista de vários outros nomes já riscados.

-Nunca gostei daquela vaca.

sábado, 22 de julho de 2006

Artigo 55 Inciso III

- Manhêêêê! – podia se ouvir a ladainha manhosa do garoto ecoando pelos quatro cantos da casa. A mãe, no entanto, já acostumada apenas gritou de volta enquanto fritava ovos para o café manhã:

- Que foi Ricardo? Se arrume logo porque eu já estou fritando seu ovo!

- Manhêêêê! – o mesmo som se repetiu como se o comentário da mãe tivesse sido em vão. De maneira irritada uma voz autoritária e feminina se fez ser ouvida em resposta à indisciplina do filho:

- Eu não quero saber Ricardo! Deixa de birra e levanta! Bota a roupa e vem comer seu café da manhã agora! Eu não quero ir até ai te buscar, mas se eu tiver...

Cerca de um minuto depois o garoto já estava todo arrumado e sentado na mesa esperando o seu prato com torradas, ovo e suco de laranja ser servido.

- Você tinha algo para me falar ou aqueles seus gritos eram só preguiça? – os olhos belos, porém decididos da mãe podiam colocar qualquer pessoa para falar a verdade.

O garoto não sabia se comia ou respondia então decidiu responder de boca cheia:

- Ah...é que eu não – e foi interrompido.

- Não fala de boca cheia. Mastiga, engole e depois fala. – e por alguns segundos houve silêncio apenas para ser interrompido pelo som de Ricardo engolindo a comida.

- Mãe, eu não quero ir pra escola.

- De novo essa história Ricardo?

- Não mãe. É que a escola é realmente muito chata. Eu não gosto de acordar cedo todo dia pra chegar na aula e ficar ouvindo a professora falar por horas. É muito chato.

- Olha só filhinho, eu sei que é chato. Eu nunca gostei de escola também. Só que não tem jeito, você precisa ir. Com certeza tem algumas coisas boas lá. Você não se diverte com seus amigos?

Ele fez um gesto de concordância.

- Então. Vai pra escola e aproveita pra se divertir na hora do recreio.

- Não. Só na hora do recreio? Eu prefiro ficar em casa.

- Mas Ricardo eu já deixei você faltar outras vezes. Você sabe que eu até deixaria você faltar mais, mas agora você corre risco de repetir por falta.

- Só na escola que tem essa coisa ridícula de presença. Eu queria ser adulto.

- Isso não é verdade. Você sabia que até os políticos tem que responder presença?

- Que mentira.

- Mentira nada Ricardo. Eu posso te mostrar na constituição. É o artigo... – antes que ela pudesse terminar foi interrompida.

- Mas quando você é adulto você faz o que gosta. Se eu gostasse de ir pra escola eu não me importaria em responder a lista de presença. Você não gosta do seu trabalho?

- Gosto. – um breve silêncio permeou a sala e o próprio raciocínio da mãe.

- Então. Se os políticos podem repetir por falta é porque o trabalho deles deve ser chato que nem a escola.

A mãe sem palavras permaneceu assim, olhando para a mesa e pensando em uma resposta.

Já tendo desistido de convencer o filho, a mãe disse:

- Tudo bem. Fica em casa hoje.

O filho comemorou discretamente e começou a levar seu prato para a pia da cozinha enquanto a mãe se levanta para ir embora.

Já na porta a mãe virou e disse:

- Beijo Ricardo! Agora, promete uma coisa pra mamãe: quando você for adulto faça algo que você goste.

O filho sorriu de volta e desejou um bom dia para a mãe.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

O Baile de Máscaras

Como ela era linda. Aquele corpo escultural estendido na cama ao meu lado simplesmente significava que ao longo do tempo soubemos lidar um com outro para ao final nos encontrarmos completamente desmascarados. Exatamente como somos, sem nenhum escudo, como quando nascemos. Atingimos o ápice da sinceridade e nada poderia nos tirar essa vitória, por difícil que ela tenha sido. Nos tornamos livres, exatamente como sempre devia-

- Bom dia amor. – a voz dela interrompeu meu monólogo mental.

- Bom dia.

- Ficou me olhando enquanto eu dormia, é?

- Não resisti. – Aproveitei para brincar, nada melhor que começar o dia em um bom humor.

- Que lindo. Você sabe que eu te amo, né?

- Eu também te amo.

- Não, eu amo mais. Eu faria de tudo para estar com você. – Realmente nesses últimos meses eu nunca havia sido entulhado com tantos presentes e afeto. Tive a impressão que nunca conseguiria tirar aquela imagem meiga da minha mente.

- Lindinha, ta ficando tarde. Vamos levantar?

- Ah não. Fica só mais um pouquinho comigo vai.

Após algum tempo nos começamos a arrumar e até esse ponto nada de diferente havia ocorrido. Até o café da manhã:

- Amor, passa a manteiga por favor. Obrigada. Olha só, hoje vou te chamar pra minha sala durante o dia, mas não se espanta não, ta? Não vai ser nada demais.

- Sei. – Não agüentei e ri um pouco. – Na última vez que você fez isso a gente tentou disfarçar, mas até agora não sabemos se nos ouviram. Melhor nem arriscar dessa vez. Aqui a gente tem mais paz.

- Não precisa lembrar. Tenho a impressão que estão me olhando estranho agora.

- Ah! Que isso. Ai já é coisa da sua imaginação. Qual problema em você rir quando vai pra sala da chefe?

- Deixa pra lá. Só num toma susto hoje quando eu te chamar.

- Tudo bem. Vamos então?

- Pode ir na frente, eu vou chegar um pouco depois hoje porque ainda tenho que arrumar minha mala.

- Que desculpa. Eu espero então.

- Não. Vai na frente, não quero que você chegue atrasado.

- Você vai demorar tanto assim?

Ela me beijou e se despediu novamente para depois entrar no banheiro. Não tive paciência para discutir. Estranho porque semana passada ela disse que iria junto comigo, acabou me seguindo no carro dela e por motivo nenhum parou e em um sinal aberto. O caos no trânsito começou a ficar tão grande que eu decidi seguir em frente. Era quase como se ela não quisesse chegar junto comigo no trabalho.

A rotina seguiu normalmente a partir daí. No escritório, vulgo o famoso baile das máscaras, encontrei Carlos grande amigo meu de trabalho contando uma história para os novos estagiários.

- Vocês precisavam ver a cara de desespero do garoto quando eu reclamei que ele havia esquecido de organizar os arquivos em ordem cronológica. Ele começou a chorar e pedir desculpa. Nessa hora eu pensei, “esse garoto não sabe trabalhar e não presta” e esse foi o nosso último estagiário aqui.

Sem dúvida o rosto aterrorizado dos novos recrutas era impagável, mas ninguém sabia que ele havia tomado uma bronca também inesquecível do seu superior e que a história do estagiário era toda balela. Dei apenas dois tapas amigáveis nas costas dele e segui para meu cubículo.

No caminho encontrei com a adorável Edna. Provavelmente umas das funcionárias mais antigas na empresa e também em faixa etária, pois devia beirar seus 70 anos. Nunca entendi como ela não havia sido demitida porque desde que ela se divorciou do marido e perdeu uma boa quantia de dinheiro passou a atender muito mal pelo telefone. Era praticamente uma ironia colocá-la como funcionária do SAC e não era a toa que poucas reclamações passassem por ela e chegassem até alguém superior. Estranhamente fora do telefone era um amor de pessoa e sempre disposta, desde que ficasse evidente que de alguma forma ela era superior a você.

Uma breve troca de “bom dias” me fez caminhar em frente já que ela parecia ocupada ao inventar mentiras para o cliente falando que o sistema estava fora do ar e aumentando o prazo padrão para a entrega de documentos. Aquela clássica ladainha que é engraçada para quem está desse lado da linha e um inferno para quem está no outro.

Chegando ao meu pequeno recinto coloquei a pasta na mesa e comecei a trabalhar. Algum tempo depois com dois copos de café apareceu Tiago.

- E ai garanhão. Aceita um café?

Ri levemente peguei o café da mão dele e perguntei sorrindo:

- Come que é?

- Você sabe pô. Num me vem com essa cara de inocente. Todo mundo viu você saindo com um sorriso da sala da chefe.

- Que isso cara. Ela contou uma piada e eu ri. É proibido sorrir agora dentro do escritório, é? Ela só é minha amiga, fica tranqüilo. Sem essa de rosto inocente porque o meu apelido não é Santinho.

- Eita. Pegou pesado agora. – O apelido do Tiago era Santinho, afinal ele tinha uma tremenda cara de santinho mesmo. Poucos na verdade sabiam a pessoa tarada que era. Em ocasiões já cheguei a vê-lo com inúmeras mulheres em uma mesma noite. No entanto no escritório ele vivia uma outra personalidade chamada Santinho. Não é que fosse o capeta, mas escondia algo por trás daquela meiga face. No entanto enquanto costumava esconder o que fazia eu costumava divulgar. – Então quer dizer que num ta rolando nada com ela?

- Ela é minha amiga. Só isso. – Mas toda regra tem sua exceção. Eu disse “costumava”.

- Tudo bem. Eu acredito. Me diz uma coisa, o almoço ta de pé?

- Claro. Então até lá.

O trabalho teria seguido normalmente pelo resto da manhã se não fosse por uma esperada interrupção. O telefone tocou e era o meu convite para sala da chefe.

Era engraçado como eu podia sentir os cubículos me acompanhando com seus olhos enquanto eu caminhava corredor a baixo. Geralmente isso seria um momento de glória para mim, mas circunstâncias atuais me faziam colocar a máscara de garanhão de lado e reconhecer que não era proveitoso nesse caso. Nem sempre a fama exagerada dos meus feitos me colocaria em uma posição favorável e essa era uma dessas situações.

- Feche a porta por favor senhor.

Eu apenas sorri com a brincadeira dela e fechei a porta.

- Veja só meu estimado empregado. Apenas lhe chamei aqui para exigir um tratamento mais respeitoso da sua parte. De agora em diante meu nome não basta e nem mesmo me chame pelo clássico apelido de “chefe”. Coloque sempre o “doutora” antes de meu nome e preferivelmente use Souza, meu sobrenome.

Meu rosto perplexo e atônito descrevia exatamente como eu me sentia. Eu estava desmascarado e despreparado para aquele momento.

- Tens algo a dizer senhor?

Consegui balbuciar uma frase com dificuldade:

- Mas ninguém te chama assim aqui e você não perde respeito por isso.

- Pois então farei com que todos tenham certeza que eu não perderei meu respeito. Pode ir agora.

Não estava em condições de argumentar ou insistir. Foi um golpe baixo.

Sai da sala cabisbaixo e desanimado. Ela ouviria a minha bronca mais tarde, mas por hora, em prol da relação, eu seguiria com o plano mascarado dela.

No caminho de volta para meu antro labutário ouvi alguns colegas falando:

- Olha só. Ta vendo ele ali. Aquele tomou bronca da chefe. Deve ter feito alguma besteira e todo mundo sabe que com ela não se brinca. Ela é tão séria que ninguém a desrespeita. Praticamente exala autoridade e em casa deve ser uma fera.

O outro colega havia me visto e complementou:

- Pode ser, mas eu acho que esse ai é o adestrador da fera.

- Que nada. Ele pode arrumar muita mulher por ai, mas essa eu duvido. Só um mestre poderia estar com a chefe.

Pensei em Carlos, Edna e Tiago. Pensei na Doutora Souza. Pensei em mim. O sangue subiu à cabeça, coloquei minha máscara e dei meia volta.

- Opa. Vocês estão falando de mim, é? Deixe-me contar uma história pra vocês.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

O Manual

Um senhor meio barrigudo por volta de seus 60 anos assiste ao noticiário na tevê. Nos intervalos comerciais ele aproveita a oportunidade para esticar seu braço para fora do sofá e pegar mais um copo cheio de suco de uva. Na distância é possível ouvir algumas vozes femininas acompanhada de uma infantil.

-Vai lá com seu avô. A gente vai prepara alguma coisa pra vocês comerem. Que tal um bolo de chocolate?

Passos leves, mas rápidos podem ser ouvidos ao se aproximarem da sala de estar e de repente pequenos braços envolvem o grosso pescoço da figura amada do jovem.

-Vitor! Como vai? Senta ai e assiste ao jornal comigo.

-Você pode assistir vovô, mas eu vou brincar. – o garoto sorridente exibe uma embalagem com um brinquedo de montar novinho dentro.

-Brinquedo novo, é? – o senhor com cabelos grisalhos sorri – Tudo bem. Então senta ai perto de mim.

Enquanto "flashes" sensacionalistas de desgraças misturadas a propagandas manipulativas e cenas eufemisticas de jogadores de futebol eram exibidas para os olhos do avô, Vitor calmamente montava sua mais nova estação de bombeiros. As peças eram variadas em cor e tamanho, mas todas elas tinham sua função na hora de montar as paredes, o chão, o telhado e o carro de bombeiro. Em meio a um intenso raciocínio e concentração o garoto é interrompido por um resmungar do avô.

-Que foi vô? – o garoto intuitivamente pergunta ao ouvir o grunhido de insatisfação.

-Olha isso. Há anos que eu vejo já essa mesma cerveja sendo exibida por uma mulher bonita da mesma forma e há anos que também só vejo desgraça. Nada muda.

O garoto sem muito entender da de ombros e volta para sua complexa construção. No entanto após algum tempo ele se depara não com uma estação de bombeiros, mas uma figura estranha e disforme de um amontoado de peças coloridas.

-Vôôô – o garoto chama pela figura poderosa no sofá – Cadê minha casa de bombeiro? Isso aqui tá estranho.

O homem olha sorridente e segura o riso quando vê uma torre semelhante a um arco íris de tijolos. Para ele a construção mais parece com uma pilha de ferro velho atacado por pintores modernos e loucos com latas de tinta variadas.

-Vitor...você leu o manual?

-Ih...é esse livrinho aqui?

-É. Olha, ninguém nasce sabendo. Se você quiser montar sua estação igual à figura da caixa, você vai ter que ler esse manual e seguir os passos. Pode ser chato, mas não é difícil e você vai ver que vai ficar igual no final.

-É...acho que esqueci de ler o manual.

O avô sorri levemente e volta a assistir ao último bloco do programa de fofoca jornalística. De repente, em vez de finalizar com os gols de algum amistoso irrelevante para o convívio social, a voz do apresentador ecoa pela sala:

"Escândalo de corrupção é revelado no congresso nacional e no poder executivo. Ligações são feitas desde o presidente da república até um deputado federal. Informações confirmam que desde meados do ano passado deputados vem recebendo uma quantia pecuniária generosa para servir os interesses das forças contratantes através de votos formais. O número de envolvidos ainda não é confirmado, mas conforme ele cresce o número de supostos artigos constitucionais violados também faz o mesmo. O nosso tele-jornal voltará brevemente após o intervalo com mais notícias de plantão."

O silêncio permeia a sala. Enquanto o senhor exala raiva através de sua respiração a criança transparece confusão e perplexidade. Ela decide falar:

-Vô. O que esses homens fizeram foi errado, né? – a criança tenta entender a situação melhor ao tirar sua dúvida.

-Claro. Eles fizeram muita coisa errada. Foram contra a constituição inclusive.

-Por quê?

-Acho que eles esqueceram de ler o manual.

-Nada muda, né? – a criança ainda confusa tenta entender.

-Nada.