terça-feira, 24 de julho de 2007

Negra Cicatriz

Com esse post é dado início a uma novidade no Vagrant Bard. Um conto policial, de minha autoria, em seis capítulos. Porque esperar é um saco e uma tortura desnecessária, aqui vai o conto na íntegra. Leiam e divirtam-se...

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I

Uma placa azul enferrujada, daquelas pregadas em prédios, dizia o nome da rua: Avenida Imperial. O nome confirmava que eu estava no lugar certo, mas não havia avenida alguma ou qualquer coisa de imperial. A chuva descia do céu negro e abafava os ruídos de relâmpagos ao fundo. A perfeita noite para estar em casa, e ali estava eu em uma ruela mal iluminada com um esgoto congestionado descendo com dificuldade pelo canal ao lado do meio fio. O toque de atraso era evidente. Era uma rua com prédios do início do século, divididos por uma faixa estreita de paralelepípedos. Eram amarelos ou azuis, mas independente de cor estavam todos descascando e revelando o vermelho dos tijolos em diferentes pontos. Traziam-me lembranças de Sofia.

Uns dois ou três postes iluminavam de maneira precária o que ainda sobrava da rua. Entre o intervalo dos primeiros dois postes havia uma área vermelha, iluminada pelo piscar repetido de um letreiro antigo que dizia “Fun House”. O que antes devia ser uma excelente estratégia de publicidade, agora só atraia o olhar hipnotizado de um mendigo que se abrigava debaixo de uma marquise na calçada oposta. Porque a curiosidade... Não sei. Talvez ele não entendesse inglês. Talvez por isso o olhar curioso e estúpido. Não importava.

Aproximei-me do infeliz e perguntei-lhe se tinha visto alguém entrar no estabelecimento. A minha resposta foi a hipnose do letreiro decadente. Enfiei a mão no bolso e tirei um maço de cigarros. Puxei um deles pela ponta e entreguei ao mendigo. Ainda com o olhar fixo no letreiro, ele pegou o cigarro e o colocou na boca esperando o toque final. Com a outra mão, já esperando essa reação, eu tirava um isqueiro. Era um daqueles chatos de prata, típico de filmes de aventureiros. Tinha o visto pela primeira vez em um antiquário e já ia deixá-lo de lado se não fosse pela cabeça de gárgula estampada em um dos lados. Ela sim, me fez tirar a carteira do bolso. Acendi o cigarro. O homem, estupidamente, inalou e sugou com toda a força, como se aquilo fosse perfume. Até eu que não fumava sabia as conseqüências. Enquanto ele tossia, o fedor da fumaça se espalhava, assim como as respostas. Eu vi sim – ele parou para tossir – muita gente rica e arrumada. Daquelas de terno e vestidos que arrastavam no chão. Nada disso soava bem. Joguei outra migalha de nicotina ao porco e atravessei a ruela.

De baixo da marquise da casa de diversões um gigante engravatado me esperava. Não havia fila, o que era de se esperar. Já era tarde e o lugar parecia ser dos piores possíveis: um cabaré barato, sujo de pouco movimento e do pior público. Das duas uma: caminhavam em direção à falência ou lavavam dinheiro. Paletó. O provável ex-lutador de luta-livre se fez entender. Como não queria causar confusão ou sair com a cara amassada tirei o paletó molhado e o entreguei. O paletó foi revistado de maneira cuidadosa, sendo avaliado cada bolso. No último bolso foi encontrado um resto de rosa. Sem caule e amassada, mas ainda assim: uma rosa... Ou o que restava do presente de Laura. Cuidadosamente o segurança a colocou de volta no bolso e me devolveu o paletó. Pode entrar. Vire a direita. O Chefe lhe espera.


II

Entrei na casa dos prazeres e para o meu espanto, lá dentro as coisas eram bem diferentes. Fui engolido por um grande salão escuro que se apresentava com um placo no meio. Uma mulher dançava em cima enquanto fazia seu ato erótico da noite, em meio à luz negra, para os homens de meia idade com olhos arregalados.

Fiquei desnorteado. A música era a alta e o ambiente hipnotizador. Caminhei em direção ao palco para tentar descobrir onde que o tal chefe poderia estar me esperando. “Senhor... a cozinha é para o outro lado.” Foi o que uma voz disse acompanhada de uma mão que tocava o meu ombro.

Cozinha? Porque diabos eu ia querer ir para a cozinha. Suspeitei, mas ainda assim dei meia volta e identifiquei no lado oposto do salão um outro ambiente separado por uma parede de vidro. Paredes e teto acolchoados pelo mesmo couro vinho que amaciava os bancos. Uma iluminação uniforme agradável que não atrapalhava nem a garçonete que servia as bebidas ou os grupos reunidos nas mesas que podiam ver claramente suas refeições.

Empurrei a porta de vidro e notei que o som também era agradável. Ao contrário do salão negro, uma melodia mais calma tocava a fim de acalmar todos lá dentro. À minha esquerda um mosaico de garrafas era exibido atrás do balcão do bar. Não queria aparentar perdido como anteriormente, mas vasculhei as estantes alcoólicas e me deparei com a garçonete que buscava o contato visual. Ela apontou discretamente para uma porta dupla na outra ponta do salão. Janelas redondas denotavam um ar de cozinha. Minha suspeição apenas aumentava, mas correr não era uma opção. Segui calmamente e empurrei as portas, entrando no que seriam os bastidores do restaurante.

Encontrei-me dentro de um típico estabelecimento de luxo. Fogões industriais de última geração e uma bancada prata que apenas esperava pessoas para cortar e preparar os mais variados alimentos. Rapidamente um homem se aproximou de mim. Ele vestia branco e um chapéu peculiar, a típica farda de um cozinheiro.

- Prazer senhor. Eu sou o chef.

Não tive ânimo para rir.

- Me acompanhe, por favor. – disse ele diante da minha ausência de resposta.

Andamos o suficiente para eu mudar de idéia quanto ao tamanho típico da cozinha até que chegamos às escadas. Descemos dois andares até que o cozinheiro pediu que eu parasse.

Diante de nós estava mais uma porta dupla de cor prata. À esquerda dela, em cima de uma pequena bancada, uma caixa de papelão fechada.

- Vejamos... o que temos aqui... – o chefe falava enquanto abria a caixa. – Ah! Essa vai cair bem em você. – Ele retirou da caixa uma face vermelha e tribal. Parecia um demônio inca.

Peguei a máscara e experimentei no rosto. Gostei.

- Vejo que temos gostos parecidos. – o cozinheiro me bajulou como um fiel mordomo faria. – Agora, apenas gostaria de lembrá-lo que não é permitido tirar a máscara durante a festa. A menos que você esteja no banheiro individual e seja necessário. Havendo qualquer problema, procure um dos seguranças, eles estarão vestindo máscaras variadas, mas haverá sempre um girassol nos seus bolsos da frente.

Agradeci com um gesto singelo e empurrei as portas. Junto com a música e sua batida pesada veio um cheiro de carne crua. Senti-me como um predador que havia acabado de encontrar sua presa. Os fatos coincidiam e aquele era o frigorífico.

Um tapete vermelho ditava o caminho para a festa em meio ao azulejo mal iluminado. No entanto eu sabia que eventualmente teria de abandonar o vermelho do carpete para seguir o vermelho do sangue. Laura estava por aqui e seria apenas uma questão de tempo até achá-la.


III

Há coisas na vida para as quais nunca somos preparados. O frigorífico era uma delas. Em todos os meus anos de jornalista, anos de loucas festas da mais alta sociedade e “choppadas” de faculdades, eu só havia visto isso em filmes. Talvez eu não tivesse visitado os lugares “certos”. Talvez eu não tivesse um olhar tão atento assim.

Cada passo naquele carpete macio acompanhava a batida pesada eletrônica. Todo o corredor tremia ao som da música. A melodia sintetizada e os instrumentos nada naturais me agradavam e eram um alívio naquele ambiente. Techno Industrial é o que muitos falariam, mas aquela música fazia parte de um ambiente que incluía muito mais. Um ar pesado me englobava e o rastro de fumaça me indicava a origem. Um grande salão se apresentava para mim com um balcão improvisado à esquerda. A tábua, onde muitos animais provavelmente eram mortos diariamente,servia como apoio para uma exibição de drinques. Nenhum deles tinha o típico guarda-chuva decorativo, mas as cores das bebidas já eram tão fosforescentes que dispensavam qualquer adorno.

Os garçons, de terno vermelho e cabeça de demônio laranja, saiam em suas rotas pré-estabelecidas distribuindo o que pareciam ser os derivados de absinto junto com um peculiar charuto. Senti o isqueiro dentro do meu bolso, minha mão tremeu. Não era a primeira vez que eu tinha sentido a vontade de fumar. O próprio isqueiro era prova disso. Comprei-o pela face de gárgula, mas passei a carregá-lo comigo por causa da maconha. No entanto, uma viagem mal sucedida foi o suficiente para me convencer de que o isqueiro serviria apenas como uma espécie de chaveiro. Um inútil adorno do qual gostamos. As lembranças dos tempos de faculdade, embora distantes, eram o suficiente para confirmar que o cheiro do salão não era da típica erva. Quanto aos convidados, eles dançavam e riam como crianças. Crianças torpes. Não devia ser cannabis sativa, era diferente, era bom demais.

Virei à direita em uma porta estreita. Mal havia luz do outro lado, levando a entender que devia ser uma área restrita. Uma estreita escada de metal me aguardava a frente. Ao topo do primeiro intervalo de degraus encontrei um casal nu, exceto pelas máscaras, usando o chão como se fosse uma luxuosíssima cama de motel. A luxúria de uma forma geral é incontrolável, mas o azulejo gélido geralmente seria evitado por casais, mesmo com instintos sexuais aflorados. Se não fosse pelo uso óbvio de uma droga, era possível dizer que o casal estava tentando inovar uma posição sexual. Contudo, os olhos tremidos e ligeiramente tortos davam a entender que eles não tinham exata consciência do que estavam fazendo. Uma noite dessas provavelmente seria o sonho de qualquer adolescente tarado. Talvez até hoje fosse o meu.

Passei por cima do sexo dos demônios e atentei para a questão principal. Laura devia estar presa em algum lugar no segundo andar, já que este parecia ser de acesso restrito. Nunca achei que fosse me encontrar nessa situação. Procurando uma amiga minha em uma festa underground. Não é todo dia que se recebe uma ligação desesperada aos prantos de uma pessoa que mal consegue balbuciar a palavra “ajuda”. Consegui o endereço da tal Fun House e assim que vim parar aqui. Guiado pela música e uma mistura de sentimentos. Sempre tivemos uma relação de amizade saudável. Hora colorida, hora não. Assim como uma luva encaixa nas mãos, encaixou a rosa que Laura me deu de bobeira (sic) pelo dia dos namorados. Esqueci o presente no bolso como o bom cavalheiro que sou e consegui acesso à festa. Já para com Laura era o oposto. Depois da ligação eu tive certeza de que a cena estaria tatuada na minha mente. Só havia uma forma de tratar isso, salvando-a.

Entrei em uma sala mal iluminada com um labirinto formado por enormes pedaços de carne pendurados por ganchos no teto. Por sempre evitar academias nunca tive um físico hercúleo. Pelo mesmo motivo não pude me defender quando senti o minotauro me golpear na nuca.


IV

Quando consegui levantar minhas pálpebras ainda estava sem qualquer noção de localização. Tive a impressão de estar pendurado pelos meus braços e foi ao retomar os meus sentidos que percebi que estava preso. Minhas mãos começaram a doer à medida que fui sentido o metal gelado em volta delas. Deviam ser algemas que me faziam abraçar o poste atrás de mim. Ainda com a cabeça pendurada, olhando para baixo, fitei minhas pernas. Elas me sustentavam em sentido vertical, mas também estavam presas por algemas. Fiz força e lentamente consegui erguer a cabeça. Meu pescoço parecia estar levantando uma bigorna. Gemi levemente com a dor.

- Vejo que o nosso convidado de honra acordou.

Uma voz calma e ligeiramente aguda se manifestou. Meus olhos lentamente traçaram o caminho até a sua origem. Um senhor idoso, meio baixo, com uma bengala na mão sorria para mim. Ele lentamente se aproximou. Cada passo equivalente a um estalo da bengala com o chão. Ele parou a uns dois palmos da minha face e me encarou.

- Quer dizer que você é o namoradinho da ladra?

Quê? Ladra? Do que diabos ele estaria falando? Era da Laura?

- Você não sabe do que estou falando? - O velho ajeitou a sua juba grisalha com um leve movimento da mão que não segurava a bengala. – Olha, eu não gosto de jovens que mentem. Sou uma pessoa muito gentil e amável. Eu cuido bem dos meus netos. Eles gritam “vô” e pedem algo e sempre que possível eu dou. Não quero mimá-los, mas eles sabem que tudo tem um preço. Quando é hora de dormir, não há discussão. Ninguém quer relembrar o que aconteceu com o Lucas. Hoje em dia eles vão para a cama sem pestanejar. Por isso eu queria aplicar esse mesmo ensinamento a esse nosso encontro.

O pequeno senhor estalou os dedos e saiu da minha frente. No lugar dele surgiu um homem de grande porte vestindo um terno e segurando uma bola de futebol.

- Esse é o Sílvio. Ele jogava futebol profissionalmente antes de vir trabalhar para mim. – Sílvio posicionou a bola na sua frente. – Agora preste atenção filho. A minha oferta é bem simples: fale a verdade ou você pagará o preço. Assim como os meus netos pagam, a única diferença é a escala de dor. Preparado? Quanto vocês tiraram de mim?

Naquele momento eu entendi que Laura devia ter mexido com a pessoa errada. Ela nunca me falou nada e eu não tive tempo para pensar porque. A bola atingiu meu estômago antes. O ar rapidamente fugiu. Senti-me como se tivessem colocado um saco plástico na minha cabeça e dado um soco na minha barriga.

- Patético. Você parece meu neto Gilberto quando tem crise de asma. Se coloque de pé ou vai tomar outra bolada nessa posição mesmo.

- Não sei. Eu não sei de nada. – Foram as palavras que consegui balbuciar.

- Tudo bem. Vamos fazer o seguinte... – Consegui vê-lo puxando um celular do bolso do paletó – Amorzinho. Vou tentar ligar para esse tal de “amorzinho”.

Ele apertou um botão e o silêncio permeou a sala. Até mesmo a minha respiração ofegante travou. Até que o meu paletó começou a vibrar e o suor a escorrer pela minha testa. Por que a Laura salvaria meu número como “Amorzinho”? Eu nunca tinha visto isso no celular dela.

- É. Acho que você deu sorte filho. Cometemos um engano. – concluiu o velho. Ele não tinha ouvido o celular vibrando, mas na terceira vez o toque foi ativado. A pequena melodia eletrônica me lembrou uma marcha fúnebre. Tremi, quase entrando em colapso mental. Sílvio se aproximou e pegou o celular do bolso do meu paletó, agora tocando cada vez mais alto.

- Péssima escolha filho. Você mentiu para mim. Você me desrespeitou. Agora vai pagar o preço. – vociferou o chefe grisalho enquanto ele me encarava e estalava os dedos.


V

Um alto barulho crescente de metal podia ser ouvido. Sílvio abriu a porta e com a luminosidade pude identificar minha localização. Era mais um dos salões de carne do frigorífico, mas vazio. Eu estava preso a um tubo de metal que fazia parte do encanamento exposto. Um carrinho de mão, daqueles para caixotes, foi trazido e nele estava estendida Laura. O seu corpo nu amarrado ao longo da extensão vertical que acompanhava a coluna. Apenas o rosto espancado e os pés ralados podiam ser vistos enquanto todo o resto estava coberto por uma quantidade excessiva de cordas.

Ergui-me e fiquei de pé sem pensar. A dor não importou. Nossos olhares se encontraram. Enquanto os meus olhos indagavam o porquê de tudo aquilo, os dela se despediam com um singelo pedido de desculpas. As lágrimas dela interromperam o recado e estas foram interrompidas pela voz diabólica.

- Escolha uma mão. Direita ou esquerda? – disse o velho para mim enquanto ele pegava uma grande faca de açougue. – Vamos... dê a mão. Você roubou, agora vamos cortá-la. – Sílvio estava tirando minhas algemas quando foi interrompido pela voz de Laura.

- Parem! – com todos os olhares voltados para ela, continuou. – Fui eu. Eu que roubei. – lágrimas se misturavam com suas falas – Ele não sabia de nada.

Sílvio recolocou as minhas algemas e o velho se aproximou de Laura, usando a sua bengala de metal para afiar a faca.

- Temos uma heroína aqui agora. Cá estava eu achando que a minha secretária, digo ex-secretária, tinha sido manipulada pelo seu namorado. Mas não. Laura... Laura... que decepção... Eu lhe dei acesso às minhas contas e você se aproveitou da minha bondade. Você devia ter pedido demissão quando lhe dei a chance. Uma garota jovem, bonita e muito gostosa. Eu fiz o impossível e te dei uma chance. Mas agora você sabe... Ninguém sai do escritório vivo. Ninguém.

- Aquilo era dinheiro sujo! Você consegue fortunas tirando de outras pessoas. – A resposta de Laura foi uma pesada palma de uma mão na sua face.

Em seguida, ela foi desamarrada e jogada no chão. Seu corpo estava completamente marcado por cortes e manchas roxas. Sílvio e mais outro gigante de terno seguraram-na enquanto o diabo grisalho esticava o braço esquerdo. Ele sorriu para mim e levantou o facão. Laura relutava da forma que podia e respirava desesperadamente. Os gritos dela ecoaram na sala. Quando eu vi sua mão sem dedos, os meus gritos ecoaram também.

Acho que ninguém gostou da cena, nem mesmo o velho, mas ele fazia pose de quem se divertia. As falas dele começaram a ficar incompreensíveis e a minha visão escura. O branco corpo de Laura, antes escultural, agora estava em uma posição contorcida. O branco profanado, agora manchado de sangue. Meus olhos involuntariamente passaram a recusar aquelas imagens e minha visão começou a escurecer.

- Fala vadia! Cadê o meu dinheiro? Onde você colocou? Fala a conta! – gritava o chefe enquanto meu corpo deslizava. Em meio ao colapso escutei falas avulsas.

- Senhor! Ele tá apagando. – uma voz grossa se manifestou, devia ser Sílvio.

- Eu quero que ele veja isso! Bota ele pra acordar! – retrucou o velho em meio aos gritos de Laura.

Senti em algum momento uma picada no meu braço esquerdo.

Uma luz verde fez com que meus olhos abrissem. O velho e os dois gigantes estavam de pé no centro do salão. Um corvo negro voava perto do teto e deu voltas em espiral até pousar ao lado do chefe grisalho. Os quatro formavam um circulo em volta do que restava de Laura. Sua face se despedia de mim com uma lágrima congelada na bochecha. O facão de açougue deitava ao lado dos pedaços do corpo e a poça de sangue se expandia cada vez mais contaminando o que restava de alvo.


VI

* * *

- Acabou? Isso é tudo que você lembra? – me perguntou o investigador.

- É. Como te disse, perdi a consciência durante o. ato. – Ainda não era fácil para eu falar sobre aquele assunto – Por que as perguntas? Já não prenderam o assassino?

- Prenderam? Trucidaram ele. A gente sabe que o Senhor Imilel foi o responsável pela morte de Laura, mas até hoje não descobrimos quem foi responsável pela morte dele e os seus dois seguranças.

- O que importa é que ele morreu. – disse sem hesitar.

- Eu te entendo, mas precisamos descobrir isso. Pode existir algum assassino de aluguel a solta que se aproveitou da situação. Não se recorda de mais nada?

- Olha. O psiquiatra me disse que eu tenho um bloqueio de mente. Na minha opinião eu apaguei. Apaguei de nervosismo. Não desejo o que eu vi para ninguém, mas fico feliz pela morte deles. Me disseram que eu fui encontrado no chão espancado e com as algemas quebradas.

- Ao lado de três corpos trucidados. – rapidamente retrucou o investigador, como uma criança fazendo um comentário esperto em sala de aula. Ele me irritou.

- E o que você quer dizer com isso? Que fui eu? Eu matei os três?

- Não! Eu só estou tentando entender o que houve naquela noite. Eles te espancaram depois de matá-la e cortaram as algemas quando viram que estavam atrapalhando. Só pode ser isso...

- Não me importa. Eu nem sei se estar vivo é uma coisa boa e você acha que eu vou me preocupar com como eles morreram? – Eu não agüentava mais. Tive vontade de matar aquele policial com suas perguntas inconseqüentes. Um corvo desceu do teto e pousou no seu ombro. Isso me levou a outra pergunta. – Tinha algum corvo lá?

- Quê? Não, não tinha... - o investigador engoliu seco - Você tá perguntando por causa da sua visão? Aquilo foi uma alucinação da adrenalina que injetaram em você. - Agora ele se dava o luxo de recusar a informação que eu tinha lhe dado. Me cansei.

- Essa conversa não tem para onde ir. Eu vim aqui buscar os pertences da Laura. – Tinham me ligado da delegacia justamente me perguntando se eu queria buscar os objetos dela que não tinham destino. A família não era encontrada em lugar nenhum e eu era o único vínculo evidente. Obviamente ninguém do trabalho se manifestou, estava tudo um caos.

O inspetor me entregou uma caixa de papelão com várias coisas. Algumas roupas, objetos aleatórios de escritório, um ursinho de pelúcia. Um porta-retrato com uma foto dela. A saudade me impulsionou. Abri o porta-retrato e peguei a foto. Dobrei-a, guardei no bolso do casaco e sai.

Chegando em casa tirei a foto do bolso. A face de Laura permanecia alva como sempre, mas o verso da foto não. Achei uma longa seqüência de números e um nome científico marcados pela letra dela. Não foi difícil ligar os fatos. Dias depois já tinha achado o dinheiro e descoberto o que tinham injetado em mim.

A manchete “Farmacêutica Imilel envolvida em produção de drogas ilícitas” foi a minha contribuição para o fim do legado daquele velho torpe. A matéria foi lida por todos e a empresa não agüentou a pressão. Em poucos meses faliu de maneira épica.

Já a substância que foi injetada em mim era para ser o protótipo da nova sensação. Dizia-se que era para ser melhor que o ecstasy. Não foi o meu caso.

Nada me fará esquecer aquela noite. Laura. Imilel. Ou o corvo. Se há coisas na vida das quais nunca conseguiremos nos lembrar, essa é uma das que não há como esquecer. A injeção aplicada de maneira errada no meu braço marca, desde então, uma negra cicatriz que começa na minha veia e termina no meu coração.

terça-feira, 29 de maio de 2007

CARPE DIEM! VIVA OS VIDEO GAMES!

Dessa vez o post é uma exceção em termos textuais, assim como na vez do filmezinho Human há dois posts atrás. Ainda assim isso é muito importante pra mim - na esfera pessoal e profissional - como também para todos os jogares de video game por ai que apreciam uma boa trilha sonora.

Por isso..segue ai uma entrevista, publicada no GameCultura, que eu fiz com o Jack Wall a respeito do Video Games Live e o seu retorno ao Brasil. Pra quem está boiando, tem uma pequena introdução pra te situar. Qualquer coisa me perguntem. E sim, eu vou no show em setembro.

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Com o divulgado retorno do Vídeo Games Live para o Brasil não há como não se perguntar como isso tudo começou. Jack Wall e Tommy Tallarico são a resposta, afinal são os fundadores do famoso concerto que assisitmos em 2006, e em 2007 promete retornar. Wall comenta isso e mais na entrevista exclusiva.

Jack Wall é um compositor veterano da indústria de games que recentemente trouxe para o Brasil o que era antes o simples sonho de um viciado em games. Contudo o Vídeo Games Live fez com que a musica dos jogos ultrapassasse aquele simples conceito musical que só interessava aos jogadores. O show está fazendo apresentações pelo mundo afora desde 2005 e mostrando para todos que não são somente os game-maníacos que podem apreciar suas melodias favoritas, mas também aqueles que nunca botaram a mão em um controle. Em suma: O Vídeo Games Live mostrou que a musica de vídeo game em sua forma orquestrada pode agradar a todos. Jack, antes de mais nada, obrigado por essa oportunidade.

Arthur Protasio: Então, como foi o Blizzard’s Worldwide Invitational? Parece que a VGL fez sucesso na Ásia também.

Jack Wall: Foi fantástico! Que palco tivemos! Tela LED de última geração passando videos e outras três telas gigantes mostrando o evento. Muitas luzes e efeitos. A gente passou uma semana programando tudo isso antes de irmos. Foi um show muito animado. Gostei muito!

AP: Você chegou a jogar muito WOW (World of Warcraft) ou foi o trailer do Starcraft 2 que te interessou mais?

JW: Na verdade eu não cheguei a jogar nada. Eu estava muito ocupado produzindo o show com o pessoal da Blizzard e o Tommy. Ainda assim foi divertido, a gente deu umas voltas pelo evento e viu milhares de pessoas se divertindo. Inclusive assisti a um pouco do campeonato de Starcraft.

AP: É incrível ver o quanto você já alcançou. Como que tudo começou? Por que você começou a trabalhar com jogos e qual foi sem primeiro emprego na área?

JW: Ei, eu só estou interessado em musica. Eu realmente amo a carreira que eu tenho – todo dia é diferente e animado! Eu comecei em 1996 com um jogo pouco conhecido chamado Flying Saucer. Ele só foi lançado na Alemanha por uma empresa, que hoje em dia não existe mais, chamada Software2000. Era na realidade um jogo de computador bem legal e eu amei a experiência de fazê-lo. Era tão sinistro e etéreo ao mesmo tempo. A partir desse ponto eu continuei a fazer vários jogos ao lado da desenvolvedora Postlinear (inexistente arualmente) em São Franciso na Califórnia. Fiz uns bons contatos naquela empresa e depois comecei a trabalhar no Myst III: Exile e isso realmente alavancou minha carreira.

AP: Qual trilha sonora que você considera ser o seu maior sucesso e qual jogo que você mais se envolveu?

JW: Provavelmente o que eu estou fazendo agora! Eu já tenho um bom histórico: Myst III, Myst IV, Splinter Cell e Jade Empire. Agora eu estou trabalhando no Mass Effect que vai ser um grande lançamento na América do Norte no Xbox 360. Eu sei que o Xbox não é tão conhecido no Brasil, mas eu espero que alguns de vocês possam jogá-lo. É incrível! Um RPG com uma forte presença de ação que se passa no futuro – um ótimo drama de ficção científica. O jogo pretende competir diretamente com o Halo, acredito eu, mas na realidade as pessoas que jogam o um também vão jogar o outro. Então na prática não existe tanta competição.

AP: Como você surgiu com a idéia de tornar em realidade o que é hoje o show de videogames mais bem sucedido do mundo?

JW: Eu e o meu parceiro, Tommy Tallarico, nos reunimos uns 5 anos atrás e passamos a pensar em projetos que poderíamos fazer juntos. A idéia de criar um concerto rapidamente foi parar no topo da nossa lista! A gente queria trazer o mundo dos games para um cenário comum e a gente realmente tem tido um belo sucesso nisso.

AP: A versão brasileira do VGL atingiu suas expectativas?

JW: Até agora a platéia brasileira é a mais animada no mundo inteiro! Eu amei e nós estamos voltando!

AP: Com o retorno do VGL confirmado para o Brasil no mês de setembro, como que você se sente voltando?

JW: A gente ama voltar para o mesmo mercado – especialmente no Brasil! Ano passado a gente só confirmou o show no Rio poucas semanas antes de chegarmos e mesmo assim quase lotamos. Esse ano a gente espera ter os ingressos a venda bem mais cedo além de fazer vários shows!

AP: O que a platéia pode esperar? Algum repertório especial como no ano passado?

JW: A gente está planejando isso atualmente e eu realmente não quero falar nada até estarmos prontos para anunciar. A gente pode aparecer e simplesmente surpreender vocês!

AP: Você gosta de jogar videogame? Quais são os seus jogos favoritos e qual o aspecto mais importante em um jogo para você?

JW: Bem, eu tenho uma filha de 10 anos. A gente joga muito Mario e Guitar Hero juntos. Eu também gosto muito de Halo, Myst, Splinter Cell e alguns outros.

AP: Qual seu conselho para qualquer pessoa que queira seguir os seus passos?

JW: Em termos de composição, é tudo sobre a mistura de talento e os contatos que você tem na indústria. Nos Estados Unidos existe uma grande rede de contatos, especialmente na Califórnia, então se você puder ir para lá e conhecer algumas pessoas vale muito a pena. Você também pode se unir ao Game Audio Network Guild e aprender mais sobre como fazer tudo isso. Eu também recomendaria uma grande conferência que acontece todo mês de março em São Francisco, a GDC - Game Developers Conference. Em termos de apresentações e concertos... sem conselhos.

AP: Quais são seus planos futuros?

JW: Estou com projetos envolvendo composições, mas também estou planejando uma turnê européia para o VGL. Enquanto isso também estamos trabalhando aqui na Ásia. No entanto esse verão (ou inverno para os brasileiros) é tudo sobre os nove shows que apresentaremos na América do Norte e em seguida...BRASIL em setembro!

AP: Fantástico. Últimas palavras?

JW: É melhor vocês aparecerem para as nossas apresentações no Brasil!

quinta-feira, 24 de maio de 2007

A Raiz

Era uma vez

Uma terra perfeita

Mas criaram Pandora

E a paz...desfeita.


Tinha ela um pouco de cada deus

Até então nunca levado uma surra

No entanto o dia veio...

E Pandora foi burra.


Viu uma misteriosa caixa

E curiosamente a abriu

Inocentemente libertando os males

E cada um fugiu.


Todos saíram rindo e gritando

A mentira, a doença, a inveja e a velhice

Sarcasticamente caçoando:

A estúpida garota

Agora chorando


Sem solução

Os anos passando

E Pandora sem esperança,

O seu fim aguardando.


Dias últimos de sonhos belos

Como uma flor.

Dias últimos de lamentos

Repletos de dor.


Pandora faleceu

Mas as guerras continuaram.

A doença e a velhice também

As causas eram inúmeras

E o humano agora era refém


O tempo não parou

E alguns até lutaram

Enquanto outros esqueceram,

Mas nunca uma solução

Acharam


Certo dia,

O erro de sua ancestral

Decidiram reparar.

Então os descendentes de Pandora

A caixa foram procurar.


Havia uma lenda

De possível salvação

Que dentro da caixa

Estaria a solução.



Ao longo do caminho,

Foram os descendentes coletando

Um por um,

Os males capturando.


Os sacos com as presas,

Cada vez maiores

E todas as desgraças, aos poucos,

Se sentindo menores.


Mas eles,

Os males,

Não se deram por vencidos

E foi assim que iniciaram

Os seus gemidos.


Aos poucos, durante a viagem,

Semearam a discórdia

E os descendentes então indagaram:

“De quem será a glória?”


“Não há glória,

Meu caro irmão.

Acabar com essa desgraça, será a nossa recompensa,

A nossa satisfação!”


“Eu quero minha parte!

Eu tenho meu direitos!”

E os companheiros de sangue

Passaram a disputar feitos


Estabelecidos os limites para eliminação do mau

Políticas burocráticas

Regras hipócritas

Não houve uma que auxiliasse em atingir o objetivo final


As discussões continuaram

As brigas pioraram

Alguns morreram

Muitos voltaram


De muitos bem intencionados

O grupo foi reduzido a poucos

Três sobraram

Estes já roucos.


Olhavam para trás

Com tristeza reparavam

A cada cidade formada

Os males suas forças renovavam


Finalmente encontraram

A velha caixa

E quase não acreditaram

Era o fim da marcha


Colocaram os sacos com as desgraças,

Em sua prisão,

E quando se deram conta

Perceberam a ilusão


“Onde está a esperança?

Não devia estar aqui?”

“Não pode ser irmão!

Será que deixou de existir?”


Depois de conversar

E concluir a grito

Descobriram que a esperança nunca existiu

Era um mito


Anos e mais décadas passaram

Nem a fome, nem a mentira ou as guerras terminaram

“Nós, homens, é que somos maus!

Prendemos os males há anos atrás

Mas onde está o fim do caos?”


Em pacto com o que de pior poderia existir

Foi determinado pelos irmãos,

Que os males a humanidade deveria destruir


Não foi difícil

Foi inclusive breve

O mundo caminhava para seu ultimato

Como para os dentes de uma raposa, a lebre


Em tempo, todo humano foi eliminado

Restaram apenas os irmãos, agora gratos.

Se entregaram então,

Como combinado.


Depois a terra retomou a beleza que originalmente tivera

Deu início a uma nova, a melhor era.

As desgraças não quiseram essa perfeição importunar

Partiram então, para outros porcos imundos, achar.


Ficou registrado na natureza

O sacrifício de milhões

Seres que deram suas vidas

Em favor de valores mais sublimes

Seres que finalmente proporcionaram a existência

De um mundo sem crimes

sábado, 12 de maio de 2007

Algumas novas...

O Vagrant Bard esteve ausente durante um tempo, mas já está de volta. No departamento da burocracia há mais um detalhe: webgroup.

Para cuidar da questão das atualizações e dos avisos para as pessoas interessadas eu fiz um google group. É só você se cadastrar nele que eu mando um aviso comunitário comunicando os updates do blog e se isso interessar, qualquer membro pode criar um tópico de discussão. Não sei se vai dar certo e se qualquer outra pessoa tiver uma sugestão, manda ver, mas pra quem quiser se arriscar (e por favor se arrique) o endereço é http://groups.google.com.br/group/vagrantbard

Segue ai, pra esse post não ser burocracia só, a mais recente obra do Vagrant bard: uma manifestação da 7a arte.

Senhores..."Human" é a nova obra prima do Vagrant Bard...espero que gostem ^^

segunda-feira, 26 de março de 2007

Times Like These...

O seguinte poema está inglês porque traduzir poesia é o cúmulo. Perde a rima e o sentido (e me da preguiça)...


Times Like These...


Times like these...

Remind me of a new age

And bring back images from old days.


Times like these...

Can't be fully enjoyed,

because I can't have enough.

And are sometimes, something I already miss...

because I don't try to look tough.


It all comes to an end,

A nostalgia of things that are yet to come.

For what I do happens now and here; most definately not in vain

And I can't help but to be happy for it all.

Yet I feel sorrow for the same,

Resulting in satisfaction, over all.


To live, to lose, and to gain,

This is life

Welcome to the chain...

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Craque Brasileiro

Como um péssimo patriota brasileiro eu nunca gostei de futebol. Nunca joguei bem e sinceramente acredito que esses dois fatores estejam relacionados em um clico vicioso. Eu nunca gostei porque sempre joguei mal e sempre joguei mal porque nunca gostei. Não faço idéia de qual fator veio primeiro e por isso não sei se sou escravo ou senhor do meu anti-patriotismo. Apesar de toda a tormenta que o futebol possa ter causado em minha vida houve um dia em que surgiu uma luz no fim do túnel. Desde então, para minha felicidade, eu não precisei mais dar o meu suor por aquele jogo de bola e o mais estranho de tudo é que a solução estava no próprio esporte.

Eu explico: o ópio do povo nunca se manteve distante das aulas de educação física e por isso toda semana eu era obrigado a participar de algumas partidas. No início fui coagido pela minha consciência e o temor das autoridades, mas com o tempo aprendi que tudo que é forçado e se torna desgastante acaba sendo burlado. Foi o que fiz, tentei boicotar o regimento interno do futebol.

Minha primeira atitude, como um aluno diligente foi conversar com o professor, mesmo que eu não soubesse dar o recado em uma única fala:

- Professor, olha só...hoje eu não vou fazer aula não. Tenho consulta no médico.

Na semana seguinte:

- Professor, meu pé tá doendo. Não consigo jogar assim.

Mais uma semana:

- Professor, estou com dor de cabeça.

Até que uma semana o que eu temia aconteceu. Conversava eu no banco com outros reservas quando fui chamado e me tornei vítima do seguinte diálogo:

- O que tá acontecendo? Você não gosta de futebol?

- Não.

- É, percebi. Mas sabe o que acontece? Se você ficar arrumando uma desculpa toda aula pra não jogar a diretoria vai reclamar comigo. Você não pode ficar arrumando uma desculpa nova porque pega mal pro meu lado.

- Entendi. – e continuei de maneira enfática - Mas eu realmente não quero jogar.

- Tudo bem. Vamos fazer o seguinte...tá vendo aquele garoto ali?

- O Peru?

- É esse o apelido dele?

Fiz cara de quem não daria mais explicações e que lamentava pelo outro aluno.

- Vamos fazer uma aposta: se ele fizer um gol na partida você nunca mais precisa fazer educação física. Você vem e vou te deixar no seu canto lá sentado conversando com o pessoal do atestado médico pra não fazer aula. Agora se não tiver gol, você vai precisar fazer aula sempre e jogando todas as partidas.

Parei para analisar. Devo ter demorado um segundo para responder. A linha de raciocínio que ocupou minha mente durante esse um segundo foi bem simples. O Peru devia jogar muito mal para o professor fazer uma aposta daquelas. No entanto por pior que ele fosse eu ainda tinha alguma chance de ganhar. Não era como se eu fosse o jogador em campo, porque se fosse o caso, certamente não apostaria em mim mesmo. Se perdesse a aposta eu deveria praticar as aulas toda semana sem falta. Em teoria naturalmente, porque eu ainda poderia faltar mais vezes e certamente continuaria burlando o sistema. Por outro lado se eu ganhasse a aposta eu não precisaria mais me preocupar em driblar a freqüência da aula e poderia descansar e receber presença ao mesmo tempo. Em suma, não tinha nada a perder.

- Tudo bem, vamos apostar.

Não sei quantas copas do mundo eu já assisti e apoiei o Brasil, mas durante todo o meu tempo de pseudo-patriota eu nunca me senti tão emocionado como naquele jogo. O destino (literalmente) em jogo soava muito mais importante e mal sabia Peru que naquele momento era a minha esperança.

Mesmo sem jogar, o suor desceu pela minha testa quando eu via que nada acontecia entre Peru e o gol. Eles não pareciam se dar bem e até aquele momento nenhum chute a gol.

A depressão monótona foi quebrada quando nos últimos minutos, por uma falha do outro time, Peru dominou a bola e realizou o que tanto ele e eu desejávamos. Não fez sentido algum para qualquer um dos jogadores ver um louco no banco de reservas comemorando um gol tão patético de uma pelada de colégio. Não importava para mim, pois agora estava livre dos grilhões da arte nacional. Por mais que eu nunca tenha verbalizado o meu agradecimento ao Peru, sei que graças a ele o futebol foi usado como instrumento para me afastar ainda mais do próprio esporte. Graças ele, posso dizer que pelo menos durante alguns minutos, eu fui brasileiro.

sábado, 29 de julho de 2006

Tudo Bem?

Enquanto assistia a sessão da tarde na televisão uma senhora por volta de seus sessenta anos é surpreendida por uma mensagem de plantão.

“Caros telespectadores, interrompemos o filme ‘Um Morto muito Louco 4’ para informar que meteoros estão vindo em direção à terra e vão colidir em apenas alguns minutos resultando no fim do mundo. Alguns abrigos já estão sendo organizados por toda a cidade, mas sinceramente achamos que de nada irá adiantar. Recomendamos que todas as pessoas aproveitem seus últimos minutos com calma e sem entrar em pânico.Obrigado.”

Logo após o aviso Andréia se levanta e vai à janela. Em questão de segundos o que parecia uma bola de gude vermelha cresceu e explodiu a algumas quadras. Fogo e caos começaram a se espalhar pela cidade e enquanto vários tremores afetavam a terra a senhora correu. Agarrou um pequeno livro de telefones e procurou um número. Logo em seguida discou discou rapidamente.

O telefone toca uma vez. Outra vez. Três. Hesitantemente a mulher vai colocando o telefone no gancho quando ouve uma voz. Coloca o receptor no ouvido:

-Alô? Alô? ALÔ? – uma voz ofegante e estridente

-Dolores?

-Quem é? – sons de explosões e gritos podem ser ouvidos ao fundo

-Sou eu Andréia. Tudo bem?

-Andréia...?

-Andréia da faculdade.

-Déiazinha! Reconheci sua voz agora. Como você ta?

-Ah eu to ótima e você amiga?

-Melhor não poderia estar. Meu casamento ta ótimo, eu moro com o homem que eu amo e meus filhos são lindos. E você?

-Eu estou be – de repente do outro lado da linha criança grita: “Mãe! Vamos sair daqui! Ta tudo pegando fogo! Mãããããããe” “Cala boca muleque, não vê que eu to falando no telefone?” O som da linha fica mais abafado, mas ainda é possível ouvir. “Arnaldo para de beber cerveja e pega o garoto chorão aqui! EU TO NO TELEFONE!” os gritos soam em um tom completamente histérico e estressado.

-Dolores?

-Oi Dédé meu amor, desculpa pela demora, o cachorro tava latindo aqui e eu tive que soltar ele do canil.

-Ah tudo bem. Eu só estava dizendo que comigo está tu-

-Mas você me ligou por que mesmo? Eu sei que a nossa amizade permanece firme como sempre, mas eu queria saber se você ta precisando de algo.

-Na verdade estou. Eu tava ligando pra te pedir de volta aquele brilhante de diamante que eu te emprestei pra ir na festa da empresa do seu marido.

-Qual?

-Aquele do coração em forma de diamante, com os detalhes folheados a ouro.

De repente em explosão ecoa do lado da linha de Andréia.

-Dédé? Que isso?

-Ah foi nada, a empregada derrubou a geladeira – Andréia observa o estrago do meteoro que caiu na sua rua pela janela. Janelas estraçalhadas, pessoas gritando e muito fogo.

-Eu acho que posso te devolver esse brilhante. Mas pode ser semana que vem?

-Olha não fica triste, mas é que eu queria esse brilhante agora. Ele era da minha mãe e significa muito pra mim.

-Pede um pro seu marido, ele é rico e pode te dar um muito mais bonito.

-Você sabe que eu sou viúva Dolores. – um tom sério permeia a ligação.

-Ah foi uma brincadeira. Então você quer ele hoje, né? Eu vou falar pro meu marido passar ai depois do trabalho. – “Num vem com papo pra cima de minha não Dolores! Você sabe que eu to desempregado!” “CALA BOCA REX! ”

-Desculpa, é o cachorro que ta com fome aqui.

-Então hoje ele deixa aqui? –Andréia testa a mentira de Dolores.

-Isso mesmo...lá pelas dezoito horas ele deve passar ai.

-Tudo b-

-Mas foi ótimo ouvir de você Dédé. Estou feliz que esteja tudo ótimo com você. Vamos sair um dia desses amiga.

Um estranho barulho de ligação chiada começa a surgir e cada vez ficando mais forte.

-Dolores? Dolores? Você não sabe meu endereço.

Os bipes de ligação cortada ecoam pela linha.

Andréia calmamente pega uma caneta vermelha e risca o nome de Dolores de uma lista de vários outros nomes já riscados.

-Nunca gostei daquela vaca.

sábado, 22 de julho de 2006

Artigo 55 Inciso III

- Manhêêêê! – podia se ouvir a ladainha manhosa do garoto ecoando pelos quatro cantos da casa. A mãe, no entanto, já acostumada apenas gritou de volta enquanto fritava ovos para o café manhã:

- Que foi Ricardo? Se arrume logo porque eu já estou fritando seu ovo!

- Manhêêêê! – o mesmo som se repetiu como se o comentário da mãe tivesse sido em vão. De maneira irritada uma voz autoritária e feminina se fez ser ouvida em resposta à indisciplina do filho:

- Eu não quero saber Ricardo! Deixa de birra e levanta! Bota a roupa e vem comer seu café da manhã agora! Eu não quero ir até ai te buscar, mas se eu tiver...

Cerca de um minuto depois o garoto já estava todo arrumado e sentado na mesa esperando o seu prato com torradas, ovo e suco de laranja ser servido.

- Você tinha algo para me falar ou aqueles seus gritos eram só preguiça? – os olhos belos, porém decididos da mãe podiam colocar qualquer pessoa para falar a verdade.

O garoto não sabia se comia ou respondia então decidiu responder de boca cheia:

- Ah...é que eu não – e foi interrompido.

- Não fala de boca cheia. Mastiga, engole e depois fala. – e por alguns segundos houve silêncio apenas para ser interrompido pelo som de Ricardo engolindo a comida.

- Mãe, eu não quero ir pra escola.

- De novo essa história Ricardo?

- Não mãe. É que a escola é realmente muito chata. Eu não gosto de acordar cedo todo dia pra chegar na aula e ficar ouvindo a professora falar por horas. É muito chato.

- Olha só filhinho, eu sei que é chato. Eu nunca gostei de escola também. Só que não tem jeito, você precisa ir. Com certeza tem algumas coisas boas lá. Você não se diverte com seus amigos?

Ele fez um gesto de concordância.

- Então. Vai pra escola e aproveita pra se divertir na hora do recreio.

- Não. Só na hora do recreio? Eu prefiro ficar em casa.

- Mas Ricardo eu já deixei você faltar outras vezes. Você sabe que eu até deixaria você faltar mais, mas agora você corre risco de repetir por falta.

- Só na escola que tem essa coisa ridícula de presença. Eu queria ser adulto.

- Isso não é verdade. Você sabia que até os políticos tem que responder presença?

- Que mentira.

- Mentira nada Ricardo. Eu posso te mostrar na constituição. É o artigo... – antes que ela pudesse terminar foi interrompida.

- Mas quando você é adulto você faz o que gosta. Se eu gostasse de ir pra escola eu não me importaria em responder a lista de presença. Você não gosta do seu trabalho?

- Gosto. – um breve silêncio permeou a sala e o próprio raciocínio da mãe.

- Então. Se os políticos podem repetir por falta é porque o trabalho deles deve ser chato que nem a escola.

A mãe sem palavras permaneceu assim, olhando para a mesa e pensando em uma resposta.

Já tendo desistido de convencer o filho, a mãe disse:

- Tudo bem. Fica em casa hoje.

O filho comemorou discretamente e começou a levar seu prato para a pia da cozinha enquanto a mãe se levanta para ir embora.

Já na porta a mãe virou e disse:

- Beijo Ricardo! Agora, promete uma coisa pra mamãe: quando você for adulto faça algo que você goste.

O filho sorriu de volta e desejou um bom dia para a mãe.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

O Baile de Máscaras

Como ela era linda. Aquele corpo escultural estendido na cama ao meu lado simplesmente significava que ao longo do tempo soubemos lidar um com outro para ao final nos encontrarmos completamente desmascarados. Exatamente como somos, sem nenhum escudo, como quando nascemos. Atingimos o ápice da sinceridade e nada poderia nos tirar essa vitória, por difícil que ela tenha sido. Nos tornamos livres, exatamente como sempre devia-

- Bom dia amor. – a voz dela interrompeu meu monólogo mental.

- Bom dia.

- Ficou me olhando enquanto eu dormia, é?

- Não resisti. – Aproveitei para brincar, nada melhor que começar o dia em um bom humor.

- Que lindo. Você sabe que eu te amo, né?

- Eu também te amo.

- Não, eu amo mais. Eu faria de tudo para estar com você. – Realmente nesses últimos meses eu nunca havia sido entulhado com tantos presentes e afeto. Tive a impressão que nunca conseguiria tirar aquela imagem meiga da minha mente.

- Lindinha, ta ficando tarde. Vamos levantar?

- Ah não. Fica só mais um pouquinho comigo vai.

Após algum tempo nos começamos a arrumar e até esse ponto nada de diferente havia ocorrido. Até o café da manhã:

- Amor, passa a manteiga por favor. Obrigada. Olha só, hoje vou te chamar pra minha sala durante o dia, mas não se espanta não, ta? Não vai ser nada demais.

- Sei. – Não agüentei e ri um pouco. – Na última vez que você fez isso a gente tentou disfarçar, mas até agora não sabemos se nos ouviram. Melhor nem arriscar dessa vez. Aqui a gente tem mais paz.

- Não precisa lembrar. Tenho a impressão que estão me olhando estranho agora.

- Ah! Que isso. Ai já é coisa da sua imaginação. Qual problema em você rir quando vai pra sala da chefe?

- Deixa pra lá. Só num toma susto hoje quando eu te chamar.

- Tudo bem. Vamos então?

- Pode ir na frente, eu vou chegar um pouco depois hoje porque ainda tenho que arrumar minha mala.

- Que desculpa. Eu espero então.

- Não. Vai na frente, não quero que você chegue atrasado.

- Você vai demorar tanto assim?

Ela me beijou e se despediu novamente para depois entrar no banheiro. Não tive paciência para discutir. Estranho porque semana passada ela disse que iria junto comigo, acabou me seguindo no carro dela e por motivo nenhum parou e em um sinal aberto. O caos no trânsito começou a ficar tão grande que eu decidi seguir em frente. Era quase como se ela não quisesse chegar junto comigo no trabalho.

A rotina seguiu normalmente a partir daí. No escritório, vulgo o famoso baile das máscaras, encontrei Carlos grande amigo meu de trabalho contando uma história para os novos estagiários.

- Vocês precisavam ver a cara de desespero do garoto quando eu reclamei que ele havia esquecido de organizar os arquivos em ordem cronológica. Ele começou a chorar e pedir desculpa. Nessa hora eu pensei, “esse garoto não sabe trabalhar e não presta” e esse foi o nosso último estagiário aqui.

Sem dúvida o rosto aterrorizado dos novos recrutas era impagável, mas ninguém sabia que ele havia tomado uma bronca também inesquecível do seu superior e que a história do estagiário era toda balela. Dei apenas dois tapas amigáveis nas costas dele e segui para meu cubículo.

No caminho encontrei com a adorável Edna. Provavelmente umas das funcionárias mais antigas na empresa e também em faixa etária, pois devia beirar seus 70 anos. Nunca entendi como ela não havia sido demitida porque desde que ela se divorciou do marido e perdeu uma boa quantia de dinheiro passou a atender muito mal pelo telefone. Era praticamente uma ironia colocá-la como funcionária do SAC e não era a toa que poucas reclamações passassem por ela e chegassem até alguém superior. Estranhamente fora do telefone era um amor de pessoa e sempre disposta, desde que ficasse evidente que de alguma forma ela era superior a você.

Uma breve troca de “bom dias” me fez caminhar em frente já que ela parecia ocupada ao inventar mentiras para o cliente falando que o sistema estava fora do ar e aumentando o prazo padrão para a entrega de documentos. Aquela clássica ladainha que é engraçada para quem está desse lado da linha e um inferno para quem está no outro.

Chegando ao meu pequeno recinto coloquei a pasta na mesa e comecei a trabalhar. Algum tempo depois com dois copos de café apareceu Tiago.

- E ai garanhão. Aceita um café?

Ri levemente peguei o café da mão dele e perguntei sorrindo:

- Come que é?

- Você sabe pô. Num me vem com essa cara de inocente. Todo mundo viu você saindo com um sorriso da sala da chefe.

- Que isso cara. Ela contou uma piada e eu ri. É proibido sorrir agora dentro do escritório, é? Ela só é minha amiga, fica tranqüilo. Sem essa de rosto inocente porque o meu apelido não é Santinho.

- Eita. Pegou pesado agora. – O apelido do Tiago era Santinho, afinal ele tinha uma tremenda cara de santinho mesmo. Poucos na verdade sabiam a pessoa tarada que era. Em ocasiões já cheguei a vê-lo com inúmeras mulheres em uma mesma noite. No entanto no escritório ele vivia uma outra personalidade chamada Santinho. Não é que fosse o capeta, mas escondia algo por trás daquela meiga face. No entanto enquanto costumava esconder o que fazia eu costumava divulgar. – Então quer dizer que num ta rolando nada com ela?

- Ela é minha amiga. Só isso. – Mas toda regra tem sua exceção. Eu disse “costumava”.

- Tudo bem. Eu acredito. Me diz uma coisa, o almoço ta de pé?

- Claro. Então até lá.

O trabalho teria seguido normalmente pelo resto da manhã se não fosse por uma esperada interrupção. O telefone tocou e era o meu convite para sala da chefe.

Era engraçado como eu podia sentir os cubículos me acompanhando com seus olhos enquanto eu caminhava corredor a baixo. Geralmente isso seria um momento de glória para mim, mas circunstâncias atuais me faziam colocar a máscara de garanhão de lado e reconhecer que não era proveitoso nesse caso. Nem sempre a fama exagerada dos meus feitos me colocaria em uma posição favorável e essa era uma dessas situações.

- Feche a porta por favor senhor.

Eu apenas sorri com a brincadeira dela e fechei a porta.

- Veja só meu estimado empregado. Apenas lhe chamei aqui para exigir um tratamento mais respeitoso da sua parte. De agora em diante meu nome não basta e nem mesmo me chame pelo clássico apelido de “chefe”. Coloque sempre o “doutora” antes de meu nome e preferivelmente use Souza, meu sobrenome.

Meu rosto perplexo e atônito descrevia exatamente como eu me sentia. Eu estava desmascarado e despreparado para aquele momento.

- Tens algo a dizer senhor?

Consegui balbuciar uma frase com dificuldade:

- Mas ninguém te chama assim aqui e você não perde respeito por isso.

- Pois então farei com que todos tenham certeza que eu não perderei meu respeito. Pode ir agora.

Não estava em condições de argumentar ou insistir. Foi um golpe baixo.

Sai da sala cabisbaixo e desanimado. Ela ouviria a minha bronca mais tarde, mas por hora, em prol da relação, eu seguiria com o plano mascarado dela.

No caminho de volta para meu antro labutário ouvi alguns colegas falando:

- Olha só. Ta vendo ele ali. Aquele tomou bronca da chefe. Deve ter feito alguma besteira e todo mundo sabe que com ela não se brinca. Ela é tão séria que ninguém a desrespeita. Praticamente exala autoridade e em casa deve ser uma fera.

O outro colega havia me visto e complementou:

- Pode ser, mas eu acho que esse ai é o adestrador da fera.

- Que nada. Ele pode arrumar muita mulher por ai, mas essa eu duvido. Só um mestre poderia estar com a chefe.

Pensei em Carlos, Edna e Tiago. Pensei na Doutora Souza. Pensei em mim. O sangue subiu à cabeça, coloquei minha máscara e dei meia volta.

- Opa. Vocês estão falando de mim, é? Deixe-me contar uma história pra vocês.